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O street lifestyle como um ready-made

Para quem não conhece o que foi o ready-made, resumo aqui como aquela célebre invenção de um francês meio doido, nos anos de 1917, quando usou um mictório de cabeça para baixo para se inscrever (com um pseudônimo) num concurso de arte. Marcel Duchamp colocou em xeque valores e conceitos de arte que transformariam toda uma geração de artistas e estabeleceria um marco na História da Arte.

Hoje, há quase cem anos depois fica meio difícil causar todo esse impacto com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo e com tanta informação chegando à toda hora. O fato é que apesar do distanciamento de um século o ready-made ainda está na moda, na fotografia, no design, na arte. Não poderia deixar de devagar à respeito disso e ilustrar com algumas expressões que estão muito próximas do meu convívio.

skate arte coverQuando um artista sai da sua zona de conforto e vai experimentar, pesquisar e se arriscar na sua insaciável produção artística, ele poderá se deparar com alguns incidentes, dificuldades e insatisfações. Mas nunca dar-se por vencido!  O artista, fotógrafo, skatista, paulista, Flávio Samelo é um desses insistentes. Ele usa o cenário da street life para o incorporar à sua linguagem, à sua arte. Traduz manobras radicais, luzes, veículos e concretismo em séries fotográficas assimetricamente equilibradas. Usa o seu objeto de registro do cotidiano da lifestyle urbana, a foto, e o expõe em espaços especializados como galerias de arte e fotografia, residências de colecionadores, magazines, revistas vanguardistas e outrozaninis.

Também poderíamos considerar o designer carioca Zanini de Zanine um artista do ready-made, por sua Poltrona Skate, de 2005. Ele se apropriou de um objeto do uso cotidiano dos skatistas e o expôs em instituições públicas, como os museus. Prova disso é que hoje sua poltrona está no acervo permanente do Museu Histórico do Rio de Janeiro.

Usar obstáculos de competições de skate, que é um objeto de uso cotidiano para essa prática esportiva e o transformar em suporte de expressão artística também seria um ready-made. Foi o que o grafiteiro goiano SELON fez nos obstáculos para as manobras, encomendados pela Ambiente selon skate 1

Skate Shop. Tá certo que nêgo vai lá dá seus flips, grinds ou ramps, estraga a pintura e depois tem que retocar tudo de novo. Mas que dáva uma mostra de arte bem contemporânea e super performática… Ahhhh, isso dáva!!!

Não é pra avacalhar com o termo, mas a contemporaneidade de certa forma o subverteu. Hoje o artista se apropria e interage na cena ouselon skate 2 no objeto encontrado do cotidiano e, assim que finalizado, encaminha este objeto às instituições culturais. Sempre dando um toque a mais no seu objet trouvé.

O objeto em estudo aqui é a street lifestyle ou o estilo de vida urbano. Não é o tipo de coisa para ser encontrado, ele simplesmente encontra você!

Are you ready for this?

A vida privada da arte

Motivada pelo nascimento da mais nova Potrich na família decidi esboçar algumas memórias relevantes à história das artes plásticas goiana e à minha vida particular.

Desde os dois anos de idade tive o contato direto com obras de arte pintadas com tintas acrílicas ou óleos, têmperas ou técnicas mistas, colagens ou monocromáticas… Nesses momentos clássicos de traquinagem innatal sironfantil inventávamos eu, minha irmã e alguns primos mais próximos um universo encantado de mundos paralelos e cenários surreais. Investigávamos entre uma obra e outra personagens para nossas histórias, criávamos roteiros de filmes para nossos bonecos atuarem ou encenávamos nós mesmos enredos lúdicos de devaneios juvenis. Muitas obras e artistas marcaram minha infância e juventude, muitos rituais e reuniões, sejam vernissages, sejam datas comemorativas como a Páscoa ou o Natal tiveram grande significado para memoráveis encontros. Foi num desses encontros que um artista me cativou profundamente, não só por sua presença de espírito, mas também pela terna imaturidade dos meus poucos seis ou sete anos de idade.

O tal artista é Siron Franco, esse pequeno notável, artista de grande expressão e um dos percursores das Imagem 004artes plásticas goiana no exterior. Esse mestre dos pincéis me mostrou como em cinco traços numa folha de papel de faz um perfeito desenho de um cachorro ou em dez segundos, o contorno preciso de um galo carijó. Ele desnudou a vergonha de um goiano após o catastrófico acidente do Césio 137. Manifestou com acidez e urgência o descaso político sobre a mortalidade infantil com uma instalação de centenas de caixõezinhos na porta do Congresso Nacional. Congregou culturas e etnias quando misturou a terra dos cinco continentes do planeta num monumento dedicado às nações. Organizou um segredo para ser aberto apenas daqui cem anos e encheu os olhos de uma criança e depois mulher, num atelier cheio de idéias e ideais.digitalizar0078

Guardo com carinho uma das poucas, quiçá a única pintura restante sobre tecido vermelho que era uma camiseta de um bloco de carnaval, dos anos 1980 (ideia de marketing cultural de minha mãe, na época), em uma caixa de vidro emoldurada, no centro de minha sala de jantar. A obra de Siron marcou a minha vida . Não só pelas escandalosas e tenebrosas figuras que permeiam seu inconsciente e sua arte, mas pela proporção que ela promove no cotidiano pessoal ou coletivo, público ou privado. Esse impacto cultural e essa coragem artística são virtudes de poucos que atuam nesta área.  Assim como foi para mim, desejo aos meus entes queridos, esta geração high tech que vem chegando e crescendo, também o usufruto deste privilégio cultural que vivenciei.

Aos meus caros, bem vindos à vida privada da arte!

Dentro do Universo da Arte

Entrevista de Ludmila Potrich concebida à querida Ana Maria Morais para a Revista Casa & Flora, Edição 77°.

                                                                           “Procuramos tornar clientes amigos, confidentes”

Dentro do universo da arte

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Os meandros do mercado de arte fazem parte do mundo de Ludmila Potrich desde a mais tenra idade. Filha de Marina Potrich, a primeira marchand a trazer para Goiânia mostras de grandes nomes da arte nacional e a promover o trabalho de artistas que atuam no Estado por todo o País, Ludmila trabalha com a mãe desde a adolescência. “Desde os 14 anos. Primeiro, eu recebia um pró-labore, depois passei a trabalhar de carteira assinada”, conta. A mãe fundou, no ano de 1980, a Galeria Marina Potrich, hoje Galeria Potrich Arte Contemporânea, cuidada por suas herdeiras, Ludmila e Tatiana Potrich. Nesta entrevista, Ludmila desvenda um pouco deste difícil e fascinante universo da arte, no qual poucos conseguem se manter e ensina: “Se despir de preconceitos quando se trata de obras de arte é muito importante.”

A Galeria Potrich existe há quanto tempo?

A galeria existe desde 1980. Faz 34 anos no mês de abril. Estou à frente da galeria há sete anos, mas desde os meus 14 anos já trabalhava com a minha mãe. Inclusive com pró-labore e, em seguida, de carteira assinada. A Tatiana também me auxilia, cuida do financeiro, da parte virtual. Mas ela também é uma artista, desenha joias.

Como é seu trabalho de orientação aos clientes na escolha de obras?

Faço um trabalho de colaboração e o colecionador vai sendo direcionado pelas próprias opiniões. Fazer uma coleção tem uma importância, um custo e vai ter um valor mais tarde. Ambientes com arte são diferenciados. E preciso respeitar o cliente, ele tem aquele espaço, aquele orçamento e o gosto dele. Funcionabilidade é o primeiro requisito. Quando se vai para arte é preciso retirar toda e qualquer interferência. A maioria dos clientes vem com um arquiteto. Eu geralmente confundo o cliente com diversas informações, mas direciono para que ele possa consumir.

Que informações você busca junto ao cliente para melhor direciona-lo?

Diversos detalhes são importantes, como o quanto a pessoa quer demonstrar e o quanto valoriza a opinião dos familiares, dos amigos. Não pode haver a disputa de “a minha coleção é mais ou menos importante do que a da minha mãe”. São objetos aos quais eu tive acesso e aos quais ela teve acesso.

É preciso saber qual também qual o suporte que ele busca, se é ferro, se é tela, se é papel e qual o estilo. Uma pessoa esteve aqui procurando alguma coisa que combinasse com a tela que ela tem de Siron Franco. Achei interessante o cuidado dela para saber o valor. Informações sobre o que a pessoa tem, já ajuda no upgrade da coleção dela. Tem aquarela, gravura, telas naifs, grafites, fotografias com interferência. Às vezes tenho a peça que o cliente gostaria, mas prefiro não indica-la por considera-la uma peça fraca.

É possível promover mudanças?

Às vezes tenho algumas coisas que não são nada daquilo que o cliente imaginou, mas ele decide ousar e mudar um pouco seus objetos de desejo. Muita gente precisa do objeto do desejo.

O que é essencial para quem quer consumir arte?

Se despir de preconceitos quando se trata de obras de arte é muito importante. Quando se entra numa loja de carros, já se tem a intenção de comprar este ou aquele carro, dependendo do dinheiro. Na galeria não existe essa situação, porque tem as exposições gratuitas, que tem um papel educativo. A arte é lúdica. Às vezes a pessoa sai sem comprar nada, mas já sai pensando. Eu acredito na minha coleção. Aqui é uma casa de negócios, uma casa de amizade. Às vezes a galeria é procurada para trocar uma moldura. Procuramos tornar os cliente amigos, confidentes.

A galeria já fez exposições de grande nomes, como está hoje?

Já expusemos Cristina Canale, Beatriz Milhazes, Marcos Coelho Benjamin, Galeno, Lucchesi, Amílcar de Castro, Luiz Hermano… Desde o princípio, a galeria sempre foi inovadora. O olhar da minha mãe sempre foi muito sofisticado. Nossas obras são deslumbrantes justamente porque minha mãe trabalhou grandes nomes. Ultimamente, fizemos uma exposição com um grupo de grafite, mesmo não sendo o forte aqui. São coletivos que vêm junto com ilustração e mudam o olhar de quem consome arte. Atualmente, eu gostaria que a galeria se especializasse nos artistas goianos, que têm muita força nacionalmente.

Trabalhar com a comercialização de arte é muito complicado?

A ligação com arte não se desfaz. Depois de 30 anos cuidando de obras de arte, o mínimo que posso informar é que é muito precioso escolher algo que você vai guardar numa caixinha. Não se pode transformar o consumo de arte numa coisa simplesmente mercadológica. Aprendi com a minha família a amar os objetos, aquela coisa que é minha e que eu vou passar para os meus filhos.

Como você divulga as obras da galeria?

Através de meus parceiros, que são minhas vitrines para eu poder apresentar os artistas em um espaço de decoração, que seja num show room, ou com um arquiteto, loja, como Armazém da Decoração, Artefacto, Dezzign, Elementos, Forma/Giroflex. Eles são referência nesse mercado. Arquitetos também orientam super bem. Existe uma relação de confiança, um cuidado para se resguardar o primeiro contato.

Quais os projetos para o ano que acaba de começar?

Este ano de 2014 vai ser charmoso. Entre as exposições individuais e coletivas, estamos organizando um evento, uma feira, na qual vai ter até apresentação de skate na área dos fundos. Vamos ter diversos estandes que vão apresentar pequenos formatos e ainda música ao vivo, com bandas. Temos o direito de reunir os amigos, festejar, vai ser um grande encontro! Se vamos ter lucro, não é a preocupação primordial, o essencial e concretizar antigas amizades e estabelecer novas parcerias.

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PHYSIS

Abre hoje, dia 09 de julho de 201krisna4 a mostra de fotografias Physis – Uma homenagem à Akira Kurosawa, de Cristina Oldemburg e junto com todo processo de criação das obras, montagem e outros preparativos para o evento, acontecimentos paralelos colocaram em evidência o seu verdadeiro significado. Para os pré-socráticos o conceito se estende à “natureza”, aos seres viventes e suas relações com o ciclo do nascer, crescer, desenvolver, envelhecer, morrer para nascer novamente. Daí a grande coincidência da vida, quando presenciamos o nascimento, há poucos dias, da mais nova herdeira do sobrenome Potrich, no entanto, paralelamente  nos confrontamos com o adoecimento do pai da artista que promove a mostra fotográfica. Nosso sentimento fica ambíguo diante da felicidade do começo e a incerteza do fim de uma vida.

A natureza é deveras impressionante e enseja ao ecossistema probabilidades de caos e ordem, esperança e dor, vitória e fracasso. A arte imita a vida, ou a vida imita a arte? Entre tantas outras curiosidades dos bastidores do mundo das artes (exposições, vernissages, escândalos, mexericos, vaidades) a natureza se revela sábia e tortuosa, embriagada de lucidez e certamente preocupada com o futuro.

Esse post é um ode às forças da natureza, que impõem à nós, pobres mortais, seus desejos e interferências, como num livro de contos, que nos disserta paulatinamente as misteriosas sagas e destinos a serem percorridos.

Imagem extraída do livro The Krisna Art.

A Experiência da Arte

Se você:

  1. tem filhos pequenos ou grandes,
  2. não tem filhos,
  3. entende ou não de arte,
  4. adora descobrir coisas novas,
  5. experimenta o silêncio como sabedoria,
  6. não tem medo do inusitado,
  7. ou gosta de brincar como uma criança.

É com você mesmo que eu quero falar.

cildo

Um mocinho muito esperto inventou de reunir 7 artistas brasileiros para uma interessante mostra de arte. O nome dele é Evandro Salles e ele deu o nome a esta mostra de A Experiência da Arte. Na verdade a grande mostra de arte é um complexo de entretenimento pawaltercio caldasra a mente e para o coração. Os artistas selecionados sabem muito bem como colocar o cérebro da gente para funcionar. Primeiro eles criam um monte de coisas que à princípio não dá pra entende nadinha, mas depois que o olhar acostuma e o corpo se entrega à “brincadeira de pensar” tudviko fica mais divertido.

Um deles é o Cildo Meireles, que há algum tempo põe o pessoal para pensar, pensar e pensar. Ele produz um estilo de arte que se chama Arte Conceitual. É bem assim, cria se uma ideia e a gente coloca essa idéia em prática, cada um à sua maneira. O Waltércio Caldas também faz mais ou menos assim, só que do jeito dele. A Paula Trope é uma fotógrafa e uma pessoa muito curiosa. Ela é tão curiosa que deu um jeito de criar um espaço igualzinho à máquina fotográfica para a gente entrar lá dentro e entender como ela funciona. O Vik Muniz é fotógrafo também, só que ele cria fotografias bem diferentes. Se você eduardoolhar com cuidado e prestar atenção nos detalhes vai perceber o que eu estou dizendo. O Eduardo Coimbra é um cara meio adulto meio criança. Ele enxerga a arte como um grande brinquedo para se brincar e o mais legal é que tovik 1do mundo pode brincar no “brinquedo” que ele inventou. O Ernesto Neto fez o mesmo, porque todo mundo “brinca” no “brinquedo” que ele criou, só que a brincadeira dele tem regras. Só pode entrar se ernestoestiver descalço e seguir o comprido caminho de zigue-zagues que ele deu o nome de Jibóia. O último de todos é o Wladimir Dias-Pino. Na “brincadeira” do Wladimir a gente tem que saber ler e escrever ou não. De repente as imagens das palavras em conjunto com outras se transformam numa forma, ou num desenho, ou num poema sem sentido ou comwladimir dias sentido. O gostoso mesmo é brincar com as palavras.

Essa experiência da arte é algo que só quem experimenta sabe dar valor aos brinquedos que fazem pensar. Toda essa brincadeira ganha um novo sentido quando a transformamos em algo poderoso e intransponível.

O saber!

Vale à pena conferir, no CCBB, de Brasília até dia 11 de agosto de 2014. Obrigada, Evandro Salles por essa maravilhosa experiência!

CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR!

*As imagens estão em ordem descritivas das obras dos artistas. Não consta aqui o espaço da fotógrafa Paula Trope, você terá de ir até lá para descobrir como é!

O cara é phoda!

Nem sei por onde começar, acho que por já ter dito muito e sempre algo me surpreende mais, volto a comentá-lo. Assim como o site da Misturasiriema Urbana fez com TINHO, faço agora de suas palavras as minhas para WÉS:

“O cara é foda e a gente paga um pau!”

Há algum tempo acompanho sua produção e o amadurecimento gradativo de seu trabalho. Reflexo da afetiva estrutura familiar e fraternal que conquista à todo momento e por todos os lugares que passa. Um desses lugares, em especial, ele vem deixando registrado a história e a beleza da natureza do cerrado goiano. Interage com o meio ambiente e o vilarejo, nas ruas e casinhas da pequena São Jorge, como já havia feito em Alto Paraíso, tamanduaquando lá residia.

O constante apuro da técnica do grafite, as experiências com esboços de desenhos em papel, pinturas em tela e outras centenas de caligrafias nos muros da cidade são um currículo e tanto para um jovem que ainda nem chegou aos trinta anos de idade. Sua sacada em pesquisar à fundo as relações de descendência étnica brasileira com a sua biodiversidade demonstra que mesmo num país tupiniquim, WÉS extravasa ao estilo naif, assim como Gauguin fez ao estilo impressionista. O grafiteiro ousa na escala de suas imagens, que à primeira vista são extremamente figurativas, mas minuciosamente detalhadas, quando nos aproximamloboos. Escolhe temas e discursos subliminares que invertem o belo ao discurso político e ecológico.

Mais um vez, WÉS conseguiu uma façanha que muitos de sua geração ainda não captaram. A simplicidade é sua mais virtuosa qualidade e é dela que ele se alimenta para ser uma artista tão especial! Fica aqui um post para homenagear este  prodígio da arte contemporânea goiana.

Bonjour

parisDuas perdidas em Paris, embriagadas pelo seu brilho e beleza era como nos sentíamos ao caminhar pelas ruas, vielas e avenidas da cidade Luz. Inclinada a me surpreender mais pelas ousadias da contemporaneidade, o passeio ao Museu do Louvre foi algo indescritivelmente contrastante.

A pirâmide de vidro em meio ao colossal complexo de prédios medievais, nos leva mesmo a concluir o que foi dito no diálogo do filme “O Código de Da Vinci”, é uma cicatriz no meio da cidade. Maravilhosamente erguido por estruturas metálicas, sua imponência é tão reluzente que ofusca seu entorno. O contraste do ultramoderno com o antigo, ou do antigo modernizado, pois que as pirâmides são um dos monumentos mais antigos da humanidade, representa talvez uma lógica carga de misticismo e mistérios.

A pirâmide e o átrio subterrâneo foram concebidos pelo arquiteto chinês Ieoh Ming Pei onde justifica sua obra na ideia de que “o sólido é para os mortos, mas o transparente é para os vivos.” O projeto de grande ousadia e coragem deixa claro as marcas da contemporaneidade na Capital da França. Localizado no centro da cidade o museu com sua exuberante pirâmide são o ponto de maior referência cultural e turística.

Assim como uma ostra, que precisa sofrer interferência ou ser ferida por outrem para produzir a pérola, o Palácio do Louvre também sofreu sua intervenção e foi presenteado com um verdadeiro diamante de vidro. O contraste desta construção contemporânea com o passeio entre os mais de 8 mil anos de história da humanidade é realmente a principal atração do passeio cultural. Aí sim, nós duas nos achamos!!!

Tatiana e Ludmila Potrich, Museu do Louvre, 2002.

The outsider art

Influenciadotatuagem pela cultura underground e alguns ritos rebeldes da juventude, o jovem artista Gustavo Rizério se profissionalizou na arte da tatuagem, mas se encaixa perfeitamente no perfil do artista outsider com obras em óleo sobre tela, grafite ou fotografias com temática do universo punk rock.

Residente em Nova Iorque, há mais de três anos, Rizério é exímio tatuador, mas também mantém seu atelier produzindo e encaminhando suas obras à galerias novaiorquinhas e mantendo exclusividade com a Galeria Potrich, em Goiânia. Seu trabalho é tão atual e inquietante, que constatamos isso através de mostras surpreendentemente chocantes, que acontecem respectivamente no Brasil e em Paris.choque cultural

Na galeria paulista Choque Cultural, a mostra fotográfica do artista belga Wim Delvoyes, que através de uma máquina de radiografia utilizou casais em poses sexuais e conseguiu um resultado um tanto aflitivo, mas com uma poética instigante.

Em Paris, o Musée du Quai Branly conta a história da tatuagem na superexposição “Tatoueurs, tatoués“, que reúne por volta de 300 itens entre fotografias, esculturas, instrumentos e até peles sintéticas cobertas por tattoos. É uma retrospectiva dos 5.ooo anos de tatuagens, que mostra o papel da arte corporal no mundo com o rizeriopassar dos séculos; com Oriente e Ocidente valorizando seus diferentes significados sociais, religiosos ou míticos.

Na coletiva Vendo o Carnaval, em 2011, Rizério mostrou com ousadia e coragem a obra Venéria, uma colagem digital que hostiliza a nossa cultura contemporânea e abre questionamentos sobre a verdadeira origem do Carnaval, seus desdobramentos e suas consequências.

Em sua primeira mostra BLUE, em 2009 o trabalho de Gustavo Rizério é descrito com texto de catálogo pelo curador Divino Sobral onde conclui:

“A atual produção de Gustavo Rizério encaixa-se na tradição da arte goiana caracterizada por elementos oriundos de expressionismo. O expressionismo foi o modelo mais aceito pelos artistas locais desde o início do desenvolvimento da nossa produção a partir de meados dos anos 50. A leitura de suas obras aponta para aspectos desenvolvidos dentro desta tradição como a problematização da figura humana num ambiente angustiante, e colocam o problema da herança regional confrontada com as questões internacionais vigentes no circuito de arte contemporânea.
O artista se posiciona diante do cenário artístico de Goiânia, com suas indagações, seus conflitos, suas heranças, suas crenças, certezas e incertezas, professando sua vontade de dar continuidade a uma linguagem, na qual poucos de sua geração ainda investem.”

Fotografia Brasileira Contemporânea

A história da fotografia no Brasil teve início em meados do século XIX e sempre esteve vinculada à nobreza e aos costumes dos brasileiros. Mas a natureza, a arquitetura e principalmente a geografia do país chamava mais a atenção dos fotógrafos. A forma como as cidades se contruíra entorno do acidentado terreno das serras, balneáreos, morros ou planaltos sempre foram assuntos para ávidos artistas em capturarem almas ou paisagens. Muitos estrangeiros e, mais tarde, brasileiros, isto é, os nascidos no Brasil, se contagiaram pela febril busca da “fotografia perfeita”.

Claudia Jaguaribe, Caio Reisewitz e Flávio Samelo são alguns dos fotógrafos brasileiros contemporâneos. Rigorosos observadores das grandes metrópoles percebem instintivamente o que gostaríamos de perceber, mas quase nunca conseguiríamos manifestar visualmente.

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Claudia Jaguaribe manipula a paisagem e integra bairros, morros e baías num mesmo plano panorâmico sem sequer despertar alguma desconfiança ao observador sobre sua mágica intervenção. Cria um cartão postal em 360° reorganizando as imagens e as articulando numa programação visual extraordinariamente perfeita.

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Caio Reisewitz quase faz o mesmo, mas sua articulação é sob a dimensão da natureza numa proporção muito maior, como na série “Goiânia”, de 2003. Caio confunde o observador quando transita entre a fotografia analógia e a digital criando a deixa para uma dúvida: “se a ilusão construída é real, ou se o real parece ilusão”.

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Flavio Samelo vai além. Disfruta de sua licença poética ao circular entre becos, ruas, avenidas e favelas. Exímio pesquisador da cultura de rua (ou da rua) transforma o concreto em poesia através de imagens urbanas captadas diariamente, num difícil exercício do “momento perfeito”.

Fotógrafos brasileiros ou artistas contemporâneos de uma época a se achar, procurar ou desvendar um sentido na sociedade… Nas cidades…

São antropólogos da arte sedentos pela beleza ou feirura das cenas, sempre dispostos à missão impossível do registro perfeito.

 

Luiz Hermano

digitalizar0031Tenho uma relação especial com a obra do artista cearense Luiz Hermano. Seu trabalho é sensível e lúdico, misterioso e familiar, incrivelmente minucioso e pacientemente artesanal. Foi em 1994 que tive contato com suas obras e com suas “Esculturas para Vestir”, mostra de arte realizada pelo MAM | SP e trazida, no ano posterior, por Marina Potrich para cidade de Goiânia.

A vernissage foi um grande alvoroço de artistas, colecionadores, imprensa e bochicho cultural. Não por menos, a recepção calorosa dos goianos à um dos maiores expoentes da arte contemporânea brasileira foi digna de um coquetel regrado à champagne e holofotes.

Depois de 20 anos volto a comentar deste senhor das amarrações, das formas arredondadas, da leveza espacial que cria, seja com metais ou materiais orgânicos e pesados, em estruturas digitalizar0030livres, soltas e flutuantes.

Seu senso crítico está mais aguçado.

A naturalidade e leveza de suas criações está cada vez mais relacionada à atualidade e a realidade social.

Sem dúvida nenhuma é um artista que cresce com o seu trabalho e vice-versa.

Sem nunca abandonar suas raízes da terra natal ou o espírito de criança invadir suas ideias.

Luiz Hermano é um grande artesão, uma criança que brinca com a arte como um menino da cidade monta peças de Lego.

Aproveito a oportunidade para convidar o leitor a passear pela mostra Ter e Ser, na Galeria de Arte Roberto Alban, em Salvador, que fica até dia 28 de maio. Lá é possível fazer um balanço da carreira do artista e concluir que quanto mais ele brinca, mais ele gosta de armado 2brincar de fazer arte.

Sorte nossa!

Vai lá: http://www.robertoalbangaleria.com.br/

Na sequência das imagens:

Modelos fotografados por Bob Wolfenson: ” Armado em Infinito” e ” Armado”.

Esculturas fotografadas por Romulo Fialdini

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