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Brésil

No texto,  “A arte urbana de Henrique Oliveira”, Aracy Amaral traça uma bela dissertação sobre o trabalho do artista, suas técnicas, suas obras, sua “rusticidade agressiva” e uma sensível metáfora de sua estética:

“É a fase de afirmação de Oliveira, quando as ondas violentamente encapeladas de suas superfícies sugerem o movimento mais fascinante para o surfista audacioso. Orgânicos, verdadeiros tsumani sempre, pela quase vertigem de suas ambientações. É a fase elaborada com restos, dejetos catados, buscados, encontrados e montados em suas instalações.”

Meu primeiro contato com a obra de Henrique Oliveira foi no ano de 2005, em Goiânia, no Salão de Arte Nacional de Goiás, 5° Prêmio Flamboyant, uma iniciativa do crítico de arte Divino Sobral e uma competente equipe de jurados, montadores e monitores.

henrique oliveira tapumes 2005

A obra, “Tapumes” é verdadeiramente impressionante quando diante dela estamos. Não só pela dimensão, mas pela plasticidade, cores e diálogo que ela exerce sobre o espectador. Creio que a entrada desses pobres materiais numa instituição de arte também chama muito a atenção. Mas a forma como Henrique Oliveira os molda, posiciona e os insere no espaço são a tônica de sua inconfundível característica artística. Não é à toa que sua atual instalação, a “Transarquitetônica”, no MAC, em São Paulo é parada obrigatória aos amantes da arte contemporânea.

henrique oliveira transarquitetonica 2014

Engraçado analisar a obra do artista como estando dentro ou fora da instituição. Em entrevista à FolhaSP ele comentou sobre sua experiência na 7ª Bienal do Mercosul, no ano de 2009, em Porto Alegre onde percebeu que as reações dos espectadores eram mais inesperadas, pois sua instalação fazia parte do lado externo da casa. Algumas pessoas vislumbraram sua estética, outras acreditavam que seria um atrativo para ratos e baratas. Será?

henrique oliveira bienal mercosul

Dentro ou fora das instituições, o artista domina a técnica desses materiais ordinários e os despachou, no início deste ano, para o sul da França, especificamente para o Festival de Chaumont-Sur-Loire. Um lugar que certamente foi uma inspiração ou inconsciente coletivo para a nossa versão brasileiríssima, Inhotim. Com alguns bons hectares, o Festival é um local de encontro de paisagistas, arquitetos, artistas, designers ou jardineiros. Henrique Oliveira é o único brasileiro à representar nosso país na “Casa de Edward Mãos de Tesoura”, como brincou a  Casa Vogue deste mês, sobre este espaço espetacular.

henrique oliveira momento fecundo 2014

Bem como o título de sua obra, “Momento Fecundo”, o artista se encontra numa fase criativa realmente muito produtiva. Sorte para nós amantes da arte!

Que a brasilidade rode o mundo inteiro e mostre a sua cara. Seja em tapume, seja em madeira de lei!

Que a beleza nasça do lixo, cresça no luxo e viva na eternidade. Salve a arte brasileira!

Joias Brasileiras

Se  um dia me perguntassem quem foi o primeiro designer de jóias do mundo, eu diria: os homens das cavernas.

O ser humano tem a fantástica capacidade de desenvolver estratégias de sobrevivência que lhe facilitam e proporcionam prazer consciente ou instintivo.  Ao fazer uso de dentes, ossos, presas, conchas, couro, pêlos, pedras e outros elementos achados ou adquiridos na natureza, ele os transformam em patuás, ornamentos de beleza, objeto de matrimônio, troféus de caça ou exibição de status à sua comunidade. Seja numa cerimônia aos Deuses, seja num baile imperial, a ornamentação corporal sempre esteve presente na humanidade.

Tentando traçar um breve histórico da joalheria, a perita judicial em design de jóias, Eliana Gola descreve o quão  importante é delimitar o que é jóia e tentar defini-la. No livro The art and craft of jewellery, de Janet Fitch, na introdução sobre o tema fica clara essa definição, onde cita que “a história convencional da joalheria é narrada a partir do ouro, prata e pedras preciosas, numa sucessão de colares, cetros, coroas e tiaras fabricadas para reis e rainhas. Porém existe outra, uma história paralela sobre antigos objetos decorativos de amplos grupos espalhados pelo mundo à fora. Nação, costume, etnia e joalheria de design moderno são partes desta história alternativa, onde o ornamento não obedecia regras.”

Assim como hoje existem designers que utilizam materiais alternativos em suas peças, antigamente os primatas já o faziam. Quando digo, materiais alternativos me refiro à algo que saia do padrão tradicional da joalheria como as pedras não polidas, pele, chifres, cerâmicas, penas, fibras, madeira, etc. Ao investigarmos a cultura dos povos da antiguidade, seus adornos, adereços de adoração, emblemas e significados nos surpreendemos com a qualidade e ousadia de criação de nossos antepassados.

Tal qual uma jóia de metal precioso, a arte plumária dos indígenas brasileiros, com sua minuciosa confecção manual, exuberância estética entre cores e equilíbrio simétrico, assim como a raridade das espécies capturadas (visto que atualmente a fauna e flora regram por grande proteção ambiental) possui altíssimo valor de mercado. “Se compararmos a arte européia e a arte indígena, veremos que, se na Europa começava o interesse pela botânica e floricultura, manifesto na joalheria, os índios brasileiros sempre a tiveram como inspiração.” Eliana Gola também classifica valiosa a diversidade e excelência de pinturas corporais de algumas tribos, contando que elas também fazem parte do ornamento físico e tem grande importância simbólica para os rituais.

blo indio

 A partir da descoberta do ouro no Brasil, no século XVII, principalmente em Minas Gerais a corrida pelo metal faz antecipar uma popularidade internacional, resultando no que Gilberto Freyre descreveria de “caldeirão cultural”. Os ourives, que antes vinham de Portugal, agora eram os ditos “impuros”, mestiços, ou brasileiros que se dedicavam à profissão utilizando técnicas e sabedoria de seus antepassados. Misturando uma série de materiais alternativos como contas de castanhas, pau-brasil, ossos ou presas de animais nativos, dá-se aí o início de uma identidade nacional, baseada nas crendices populares, miscigenação, elementos resgatados na natureza e motivos da brasilidade.

blog lian

 Assim como os indígenas, os africanos ou a realeza européia, a corte brasileira também desfilava seu status e poder nas festas através de suas jóias e pedras preciosas, mas com um pequeno detalhe, suas escravas também tinham de usá-las. As conhecidas jóias de crioulas eram confeccionadas exclusivamente para essas escravas. São assim chamadas porque eram criadas dentro do ambiente da nobreza, isto é, dentro da casa-grande e não na senzala. As amas de leite, ou afilhadas, até mesmo as amantes dos senhores possuíam suas próprias jóias. Atualmente, seria como possuir um carro de luxo e o exibir à sociedade, quanto mais riqueza tivesse mais jóias se adornaria a crioula.

blog criola

 Com o passar do tempo e o enfraquecimento da política de escravidão as próprias escravas compravam sua alforria com suas jóias. Os adornos englobavam uma mistura de temas da joalheria portuguesa com a africana, fortemente manifestada por motivos religiosos ou profanos. São conhecidas as peças que incluem ébano, búzios, piaçaba, corais, marfins e cristais. Laura Cunha editou um livro de imagens e história das Jóias de Crioula, onde fez uma maravilhosa seleção de peças, principalmente dos famosos balangandãs. Num conjunto harmônico de pingentes, o balangandã era peça fundamental na ornamentação da crioula. Cada pingente tinha seu significado, sua simbologia litúrgica ou sua função de proteção. Também eram peças barulhentas, visto que presas aos tornozelos ou cinturas informavam o local exato das escravas.

blog bernardo

A história da joalheria brasileira ainda é pouco explorada, porém muito valiosa. Não por acaso, um dos raros mantos tupinambás está num museu da Dinamarca. Peças em cerâmica, de índios Carajás ou marajoaras, cocares elaborados com espécies de pássaros já extintos, ou estão nas mãos de meticulosos colecionadores ou em instituições estrangeiras. Nosso legado como designers é o de acrescentar às gerações próximas a nossa verdadeira herança cultural. Seja pelo desenvolvimento de novas técnicas, seja no resgate de nossas raízes.

Como na versão do colar cocar, de Tatiana Potrich e na pulseira balangandã, de Antônio Bernardo.

O primeiro ícone do grafite brasileiro

antonie helbert

Fuçando o Instagram encontrei no post da revista virtual @zupimag, essa imagem do artista francês Antonie Helbert. Pintor, escultor, ilustrador e fera na camuflagem e hibridismo de personagens famosos ou seres fantásticos, fruto da imaginação coletiva, ele consegue os transformar quase numa realidade intrigante e divertida. Não é dele que eu quero falar, mas foi por causa dele que recordei de uma personagem muito famosa, por aqui no nosso país, a Rainha do Frango Assado, de Alex Vallauri (1949-1987).

alex vallauri

Filho de italianos, nascido na Eriteia, então parte da Etiópia ocupada pela Itália, Vallauri mudou se para Buenos Aires, Santos e, por fim São Paulo. Ele que se dizia um “afro-italiano, meio portenho, meio brasileiro”, teve uma vida on the road. Bateu tanta perna por aí, que chegou a conhecer pessoalmente Andy Wharol, Jean Michel Basquiat e Keith Haring. Tops e pops da vanguarda artística internacional, Vallauri trouxe na bagagem uma linguagem urbana que iria se

expandir ao longo de ruas, becos e avenidas paulistanas e, para minha felicidade, uma mostra interativa na  Bienal Internacional de São Paulo, em 1985, com a grande instalação “A festa na Casa da Rainha do Frango Assado”. Antes mesmo das carinhas amarelas dos OsGêmeos, ou de stencil’s com imagens de punhos fechados, o martelo e a foice e outros  tantos ícones da nossa cultura  pós-ditadura, Alex Vallauri desafiou o bom gosto e os bons costumes para expressar a verdadeira realidade da cultura pop nacional, dando uma nova versão à mulher de classe média paulistana, cafona e irreverente. Algo entre “femme fatale” e prostituta barata.

Suas técnicas e como as aplicava foi uma ruptura às convenções das artes plásticas. Usufruindo da rua como suporte artístico fazia uso da gravura, carimbos ou stencil’s para se expressar em muros, paredes, postes e até no chão. No ano passado, em abril, o artista teve mostra retrospectiva no MAM, com curadoria de João Spinelli, que remontou a instalação da Rainha do Frango Assado. Ainda me lembro das imagens da artiz, Claudia Raia que encarnou essa personagem no vídeo que fazia parte da instalação. Embora, com apenas 7 anos, aquilo me marcou profundamente, talvez até por causa da idade, mas meu sonho de consumo era ser a Rainha do Frango Assado quando eu crescesse (risos), ou até mesmo a Claudia Raia. Não seria nada mal…

speto

O mais legal é que, também nessa semana, encontrei a imagem da personagem nos traços característicos do artista Speto. Seus trabalhos englobam as técnicas do grafite, pesquisas sobre xilogravura, pinturas e desenhos. A homenagem é muito bem vinda, não é à toa que o título deste post é sobre esta personagem icônica, da década de 80.

Diretas Já, liberdade de expressão e empoderamento feminino!

Oh Yes!

Abelhas para quê te quero

Quando li “As abelhas farmacêuticas”, um livrinho de bolso que sintetizava de forma objetiva todas as qualidades dessas fabulosas doçuras da natureza, com meus poucos 10 ou 12 anos, não imaginaria que algum dia, aqueles bilhões de insetinhos poderiam correr o risco de sumirem do nosso planeta. Para um clássico otimista isso é passageiro, mas ainda sim é bom que hajam holofotes para a notícia. Especulam que esse sumiço é cíclico ou que uma bactéria esteja infectando nossas amigas. Também existem indícios de que os agrotóxicos e a derrubada de florestas e matas para as grandes lavouras sejam a causa principal do êxodo dessas fazedoras de mel, que migram para áreas mais expostas à poluição e de riscos para o seu equilíbrio ecológico.abelhas izu

A animação Bee Movie, de 2007 foi a primeira mostra do desastre ecológico, caso realmente esses insetinhos comecem a desaparecer.  O filme tem um roteiro divertido, mas prende a nossa atenção, justamente pelo fato das abelhas exercerem um cargo de extrema responsabilidade no ecossistema. No mês junho de deste ano, a marca de cosméticos Natura lançou a campanha de perfume masculino inspirada na arte de rua, o grafite que traz imagens contrastantes entre o urbano e a natureza, como no frasco com o desenho do artista IZU. O artista paulista, que tem a abelha como objeto de estudo para seu trabalho cedeu a imagem para a embalagem da marca, que além de remeter à um doce aroma, a abelha sugere uma ligação natural ao corpo e à vida do ser humano.

abelhas urbano

Bela ou não, a intervenção de Siron Franco na Fundação Rizzo faz jus à importância desse bichinho para a sociedade. O artista goiano plotou dezenas de abelhas no casarão como um apelo e denúncia à sua frágil existência.

O artista não tem que agradar à todos os gostos, ele tem que fazer arte, informar, ter um ponto de vista crítico e colocá-lo em prática, porque “essa é a função do artista: incomodar”, Stella Maris.

Salve as abelhas!

abelhas

As Artes sem fronteiras

Assistindo à um filme, escutando uma música, lendo um livro, observando uma obra de arte, admirando um desfile de moda, divagando sobre a arquitetura, degustando uma saborosa refeição, contemplando um espetáculo de dança ou uma peça teatral nos tornamos, de certa forma, parte destas manifestações de arte. Atiçamos nossos sentidos e nos transportamos para lugares que só a mente pode nos levar. Seja pelo cheiro, o gosto, ou o som que nos lembra algo ou alguém, algum lugar, ou momento. As fronteiras entre uma arte e outra tendem, cada vez mais, a desaparecerem, ou seja, todas as artes tendem cada vez mais à se aproximarem. As artes plásticas como suporte para moda, a culinária como obra de arte, a música universalizando a moda, com o cinema e a arquitetura, a literatura com design…

osklen

O estilista da grife Osklen, o brasileiro Oskar Metsavaht é literalmente um cientista artístico. Formado em Medicina e especializado em traumatologia do esporte, por uma ironia ou sortilégio do destino fundou a marca mais descolada do lifestyle esportivo chic. Pesquisa para sua próxima coleção nada mais que o Instituto Inhotim e dá show de sustentabilidade em muito europeuzinho politicamente correto.

alex atala blog

A sustentabilidade também entrou no mundo do mestre das facas, que já citei aqui no blog num post anterior, o punk pop, Alex Atala. Ele uniu os temperos e sabores da cozinha brasileira pra estrangeiro nenhum botar defeito. Lhe cai bem a expressão “comer com os olhos”, porque seus pratos são verdadeiras obras de arte.

Músicos que unem o útil ao agradável, o erudito e popular, o pop e clássico, como o pernambucano Lenine que, num mesmo show, convidou um rapper, uma harpista e uma orquestra sinfônica para dividirem o palco. Ou a banda O RAPPA, onde o show explora projeções virtuais com imagens de grafites e a banda compartilha suas letras com talentosos como Maria Rita e Siba, o rei da rabeca. Mais ainda, o maravilhoso show de Marisa Monte, que uniu o público à boa música e arte com excelência, pois a cenografia foi assinada pelo artista carioca, Ernesto Neto.

ernesto e marisa

O cinema provavelmente é o que mais universaliza as artes. Num bom filme se pode ter uma boa trilha sonora, cenas que pontuam as artes plásticas ou o uso da fotografia do filme é a própria obra de arte, um figurino top style, locações de design, enredos literários…

A arquitetura, só pra citar um exemplo que é tão acessível à mim quanto à qualquer outro cidadão, como a  da Pinacoteca de São Paulo, é um hino às multiplicidades das artes, o antigo encontrando o novo em diálogo constante com as artes plásticas, música, dança, teatro, desfile. pinacoteca

Com a literatura não é diferente.  Quem não conhece ou ouviu falar de João Ubaldo Ribeiro? Ou Jorge Amado? A literatura baiana invade os nossos ouvidos num sorrateiro sotaque arrastado, os livros tem cheiro de mar, a escrita tem o som das ondas somado ao barulhinho das conchas na areia, lembrando as músicas de Dorival Caymmi, os desenhos de Carybé, ou as ladeiras do Pelourinho!

Interessante falar sobre isso, mas a necessidade veio por causa de um acontecido no Facebook. Mestre em Arte Publicitária e Produção Simbólica, ECA/USP, foi meu professor na pós graduação na UFG, em 2002, talentoso artista plástico, Carlos Sena Passos, nascido em Mairí, BA, 1952 e atualmente diretor do Centro Cultural da UFG, deu início à uma importante lista de artistas que integram a Arte Contemporânea de Goiás HOJE. Seu conhecimento e sua seleção são indiscutíveis, mas por força do (meu/mau)hábito retruquei sua curadoria e fui instigada à promover minha própria lista de artistas. Não o bastante, o empresário e agente cultural Fabrício Nobre também fez a sua.

Bem, e o que isso tem a ver com as fronteiras das artes? Venho de uma formação acadêmica da moda, da arte e da história, Nobre vem de uma formação acadêmica do Direito, do circuito da música, do rock (Noise Festival, Bananada, Vaca Amarela e tals). Nossas preferências  se convergem ou se divergem, ora pela nossa formação ou bagagem cultural, ora por nossas opções pessoais e sentimentais. A experiência foi muito legal, porque “acaba que a gente começa” a conhecer um pouquinho mais das pessoas, da arte que mais nos atrai e, de como ela rege as nossas vidas direta ou indiretamente! Observando essas preferências  nos damos conta de que todas as outras artes sofrem a mesma influência. Ver a lista dos artistas de Nobre é como estar escutando rock, caminhando pela cidade, contornado prédios, carros, becos e vielas, descendo escadas e adentrando em porões ou pubs, usando preto, caveira, tatuagem, mastigando chiclete. Ver a lista de Sena é como estar escutando MPB, numa praia, numa floresta, na rua ou numa repartição pública, usando uma bata, um jeans, um lenço, um documento, tomando uma coca-cola!

Associar todas essas manifestações artísticas pode ser um exercício de cidadania. A gente compreendendo um pouco a história do outro, suas preferências, idéias e ideais. Sem fronteiras para imaginar, sem fronteiras para se assemelhar ou diferenciar! A análise é um pouco superficial, mas diante das referências distinguimos as pessoas, seus hábitos, suas experiências. “Se despir de preconceitos quando se trata de obras de arte é muito importante”, ressalta minha irmã Ludmila Potrich e estendo a idéia para todas as artes em si. O preconceito é a fronteira máxima para quem quer ir adiante! Mas aqui, a arte é sem fronteira!

Os tons brasileiros na obra de ZÈCÉSAR

Zècésar ou José César Teatini Souza Clímaco foi meu professor no curso de Pós-graduação em Arte Contemporânea (FAV/UFG), em 2002. Ele também foi meu professor de capoeira, não de aulas de capoeira, mas de certa forma do seu ensino cultural e histórico. Ele é um músico, um percussionista de bongô, gongo, atabaque, triângulo, rêco-rêco, berimbau… É também um mestre em gravura e um sensível conhecedor da estética das cidades.

ze metropolisZècésar é praticamente um artista completo. Pesquisa, desenha, prensa,  imprime, corta, recorta, cola, toca, replica, fotografa, informatiza, cria, inventa, produz, produz, produz… De forma poética ele faz seus experimentos em papelões onde cortes milimetricamente perfeitos reproduzem casas, prédios ou planos inteiros de cidades. É como se das linhas, formas e disposições dos cortes quisessem emanar sons.  As ondulações, a geometria, a harmonia e o equilíbrio do conjunto de sobreposições somado às cores ou a naturalidade de sua matéria-prima recortada entoam sons em forma de imagens. O movimento ou repouso entre um corte e outro, uma janela à outra, uma porta, uma rua…

O papelão surgiu na vida do artista acidentalmente, através de pesquisas onde tentava criar matrizes de gravuras com mais relevos, colando materiais. Para ele, é uma alegoria perfeita a utilização do papelão como representação da cidade, é refleti-la através do seu lixo, que é descartado diariamente às centenas. “Se prestarmos atenção, veremos que é um dos lixos mais encontrados nas portas das casas e pelas ruas. São amontoadas, pisadas, molhadas, usadas pelossem-teto para dormir. Eu as recolho, corto, dou-lhes formas, sobreponho pedaços, colo fragmentos. Transformo-as em imagens que refletem uma imagem da cidade”, conclui.  Seu trabalho está carregado de brasilidade, de cidade, de contemporaneidade! O artista arquiteta o ritmo de sua obra, planeja a intensidade da altura de seus edifícios como uma melodia, como notas musicais num pentagrama. zecesa

Observar as metrópoles de papel de Zècésar, para mim é como escutar o som do berimbau. Na capoeira a orquestra da roda é composta por três berimbaus. São tocados nove tipos de toques, um para cada estilo de jogo. Esse é o lance do experimento na obra do Zé, ou Costeleta, como é seu apelido na capoeira. Observo suas nuances de cortes e, quanto mais finas, curtas e constantes imagino o tom do berimbau viola, num som de São Bento Grande. Mas quando largas, longas e compridas me vem o toque de Iúna, no tom do berimbau gunga.Created with Nokia Smart Cam

Sei lá, acho que é porque minha primeira referência deste querido professor e artista foi uma gravura de 1978, intitulada “Capoeira”, que herdei em vida, de minha avó materna e também quando ainda cursava Design de Moda, em 2000 e assistia aos shows de sua banda, Umbando, nos DCEs universitários.  O que veio anos depois, com a minha bagagem da vida acadêmica, a arte se encarregou de associar!

Feliz Dia do Capoeirista – 03 de Agosto de 2014.

O street lifestyle como um ready-made

Para quem não conhece o que foi o ready-made, resumo aqui como aquela célebre invenção de um francês meio doido, nos anos de 1917, quando usou um mictório de cabeça para baixo para se inscrever (com um pseudônimo) num concurso de arte. Marcel Duchamp colocou em xeque valores e conceitos de arte que transformariam toda uma geração de artistas e estabeleceria um marco na História da Arte.

Hoje, há quase cem anos depois fica meio difícil causar todo esse impacto com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo e com tanta informação chegando à toda hora. O fato é que apesar do distanciamento de um século o ready-made ainda está na moda, na fotografia, no design, na arte. Não poderia deixar de devagar à respeito disso e ilustrar com algumas expressões que estão muito próximas do meu convívio.

skate arte coverQuando um artista sai da sua zona de conforto e vai experimentar, pesquisar e se arriscar na sua insaciável produção artística, ele poderá se deparar com alguns incidentes, dificuldades e insatisfações. Mas nunca dar-se por vencido!  O artista, fotógrafo, skatista, paulista, Flávio Samelo é um desses insistentes. Ele usa o cenário da street life para o incorporar à sua linguagem, à sua arte. Traduz manobras radicais, luzes, veículos e concretismo em séries fotográficas assimetricamente equilibradas. Usa o seu objeto de registro do cotidiano da lifestyle urbana, a foto, e o expõe em espaços especializados como galerias de arte e fotografia, residências de colecionadores, magazines, revistas vanguardistas e outros.zanini

Também poderíamos considerar o designer carioca Zanini de Zanine um artista do ready-made, por sua Poltrona Skate, de 2005. Ele se apropriou de um objeto do uso cotidiano dos skatistas e o expôs em instituições públicas, como os museus. Prova disso é que hoje sua poltrona está no acervo permanente do Museu Histórico do Rio de Janeiro.

Usar obstáculos de competições de skate, que é um objeto de uso cotidiano para essa prática esportiva e o transformar em suporte de expressão artística também seria um ready-made. Foi o que o grafiteiro goiano SELON fez nos obstáculos para as manobras, encomendados pela AmbienteSkate Shop. Tá certo que nêgo vai lá dá seus flips, grinds ou ramps, estraga a pintura e depois tem que retocar tudo de novo. Mas que dáva uma mostra de arte bem contemporânea e super performática… Ahhhh, isso dáva!!!

selon skate 1

selon skate 2Não é pra avacalhar com o termo, mas a contemporaneidade de certa forma o subverteu. Hoje o artista se apropria e interage na cena ou no objeto encontrado do cotidiano e, assim que finalizado, encaminha este objeto às instituições culturais. Sempre dando um toque a mais no seu objet trouvé.

O objeto em estudo aqui é a street lifestyle ou o estilo de vida urbano. Não é o tipo de coisa para ser encontrado, ele simplesmente encontra você!

Are you ready for this?

A vida privada da arte

Motivada pelo nascimento da mais nova Potrich na família decidi esboçar algumas memórias relevantes à história das artes plásticas goiana e à minha vida particular.

Desde os dois anos de idade tive o contato direto com obras de arte pintadas com tintas acrílicas ou óleos, têmperas ou técnicas mistas, colagens ou monocromáticas… Nesses momentos clássicos de traquinagem infantil inventávamos eu, minha irmã e alguns primos mais próximos um universo encantado de mundos paralelos e cenários surreais. Investigávamos entre uma obra e outra personagens para nossas histórias, criávamos roteiros de filmes para nossos bonecos atuarem ou encenávamos nós mesmos enredos lúdicos de devaneios juvenis. Muitas obras e artistas marcaram minha infância e juventude, muitos rituais e reuniões, sejam vernissages, sejam datas comemorativas como a Páscoa ou o Natal tiveram grande significado para memoráveis encontros. Foi num desses encontros que um artista me cativou profundamente, não só por sua presença de espírito, mas também pela terna imaturidade dos meus poucos seis ou sete anos de idade.natal siron

O tal artista é Siron Franco, esse pequeno notável, artista de grande expressão e um dos percursores das artes plásticas goiana no exterior. Esse mestre dos pincéis me mostrou como em cinco traços numa folha de papel de faz um perfeito desenho de um cachorro ou em dez segundos, o contorno preciso de um galo carijó. Ele desnudou a vergonha de um goiano após o catastrófico acidente do Césio 137. Manifestou com acidez e urgência o descaso político sobre a mortalidade infantil com uma instalação de centenas de caixõezinhos na porta do Congresso Nacional. Congregou culturas e etnias quando misturou a terra dos cinco continentes do planeta num monumento dedicado às nações. Organizou um segredo para ser aberto apenas daqui cem anos e encheu os olhos de uma criança e depois mulher, num atelier cheio de idéias e ideais.Imagem 004

Guardo com carinho uma das poucas, quiçá a única pintura restante sobre tecido vermelho que era uma camiseta de um bloco de carnaval, dos anos 1980 (ideia de marketing cultural de minha mãe, na época), em uma caixa de vidro emoldurada, no centro de minha sala de jantar. A obra de Siron marcou a minha vida . Não só pelas escandalosas e tenebrosas figuras que permeiam seu inconsciente e sua arte, mas pela proporção que ela promove no cotidiano pessoal ou coletivo, público ou privado. Esse impacto cultural e essa coragem artística são virtudes de poucos que atuam nesta área.  Assim como foi para mim, desejo aos meus entes queridos, esta geração high tech que vem chegando e crescendo, também o usufruto deste privilégio cultural que vivenciei.

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Aos meus caros, bem vindos à vida privada da arte!

Dentro do Universo da Arte

Entrevista de Ludmila Potrich concebida à querida Ana Maria Morais para a Revista Casa & Flora, Edição 77°.

                                                                           “Procuramos tornar clientes amigos, confidentes”

Dentro do universo da arte

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Os meandros do mercado de arte fazem parte do mundo de Ludmila Potrich desde a mais tenra idade. Filha de Marina Potrich, a primeira marchand a trazer para Goiânia mostras de grandes nomes da arte nacional e a promover o trabalho de artistas que atuam no Estado por todo o País, Ludmila trabalha com a mãe desde a adolescência. “Desde os 14 anos. Primeiro, eu recebia um pró-labore, depois passei a trabalhar de carteira assinada”, conta. A mãe fundou, no ano de 1980, a Galeria Marina Potrich, hoje Galeria Potrich Arte Contemporânea, cuidada por suas herdeiras, Ludmila e Tatiana Potrich. Nesta entrevista, Ludmila desvenda um pouco deste difícil e fascinante universo da arte, no qual poucos conseguem se manter e ensina: “Se despir de preconceitos quando se trata de obras de arte é muito importante.”

A Galeria Potrich existe há quanto tempo?

A galeria existe desde 1980. Faz 34 anos no mês de abril. Estou à frente da galeria há sete anos, mas desde os meus 14 anos já trabalhava com a minha mãe. Inclusive com pró-labore e, em seguida, de carteira assinada. A Tatiana também me auxilia, cuida do financeiro, da parte virtual. Mas ela também é uma artista, desenha joias.

Como é seu trabalho de orientação aos clientes na escolha de obras?

Faço um trabalho de colaboração e o colecionador vai sendo direcionado pelas próprias opiniões. Fazer uma coleção tem uma importância, um custo e vai ter um valor mais tarde. Ambientes com arte são diferenciados. E preciso respeitar o cliente, ele tem aquele espaço, aquele orçamento e o gosto dele. Funcionabilidade é o primeiro requisito. Quando se vai para arte é preciso retirar toda e qualquer interferência. A maioria dos clientes vem com um arquiteto. Eu geralmente confundo o cliente com diversas informações, mas direciono para que ele possa consumir.

Que informações você busca junto ao cliente para melhor direciona-lo?

Diversos detalhes são importantes, como o quanto a pessoa quer demonstrar e o quanto valoriza a opinião dos familiares, dos amigos. Não pode haver a disputa de “a minha coleção é mais ou menos importante do que a da minha mãe”. São objetos aos quais eu tive acesso e aos quais ela teve acesso.

É preciso saber qual também qual o suporte que ele busca, se é ferro, se é tela, se é papel e qual o estilo. Uma pessoa esteve aqui procurando alguma coisa que combinasse com a tela que ela tem de Siron Franco. Achei interessante o cuidado dela para saber o valor. Informações sobre o que a pessoa tem, já ajuda no upgrade da coleção dela. Tem aquarela, gravura, telas naifs, grafites, fotografias com interferência. Às vezes tenho a peça que o cliente gostaria, mas prefiro não indica-la por considera-la uma peça fraca.

É possível promover mudanças?

Às vezes tenho algumas coisas que não são nada daquilo que o cliente imaginou, mas ele decide ousar e mudar um pouco seus objetos de desejo. Muita gente precisa do objeto do desejo.

O que é essencial para quem quer consumir arte?

Se despir de preconceitos quando se trata de obras de arte é muito importante. Quando se entra numa loja de carros, já se tem a intenção de comprar este ou aquele carro, dependendo do dinheiro. Na galeria não existe essa situação, porque tem as exposições gratuitas, que tem um papel educativo. A arte é lúdica. Às vezes a pessoa sai sem comprar nada, mas já sai pensando. Eu acredito na minha coleção. Aqui é uma casa de negócios, uma casa de amizade. Às vezes a galeria é procurada para trocar uma moldura. Procuramos tornar os cliente amigos, confidentes.

A galeria já fez exposições de grande nomes, como está hoje?

Já expusemos Cristina Canale, Beatriz Milhazes, Marcos Coelho Benjamin, Galeno, Lucchesi, Amílcar de Castro, Luiz Hermano… Desde o princípio, a galeria sempre foi inovadora. O olhar da minha mãe sempre foi muito sofisticado. Nossas obras são deslumbrantes justamente porque minha mãe trabalhou grandes nomes. Ultimamente, fizemos uma exposição com um grupo de grafite, mesmo não sendo o forte aqui. São coletivos que vêm junto com ilustração e mudam o olhar de quem consome arte. Atualmente, eu gostaria que a galeria se especializasse nos artistas goianos, que têm muita força nacionalmente.

Trabalhar com a comercialização de arte é muito complicado?

A ligação com arte não se desfaz. Depois de 30 anos cuidando de obras de arte, o mínimo que posso informar é que é muito precioso escolher algo que você vai guardar numa caixinha. Não se pode transformar o consumo de arte numa coisa simplesmente mercadológica. Aprendi com a minha família a amar os objetos, aquela coisa que é minha e que eu vou passar para os meus filhos.

Como você divulga as obras da galeria?

Através de meus parceiros, que são minhas vitrines para eu poder apresentar os artistas em um espaço de decoração, que seja num show room, ou com um arquiteto, loja, como Armazém da Decoração, Artefacto, Dezzign, Elementos, Forma/Giroflex. Eles são referência nesse mercado. Arquitetos também orientam super bem. Existe uma relação de confiança, um cuidado para se resguardar o primeiro contato.

Quais os projetos para o ano que acaba de começar?

Este ano de 2014 vai ser charmoso. Entre as exposições individuais e coletivas, estamos organizando um evento, uma feira, na qual vai ter até apresentação de skate na área dos fundos. Vamos ter diversos estandes que vão apresentar pequenos formatos e ainda música ao vivo, com bandas. Temos o direito de reunir os amigos, festejar, vai ser um grande encontro! Se vamos ter lucro, não é a preocupação primordial, o essencial e concretizar antigas amizades e estabelecer novas parcerias.

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PHYSIS

Abre hoje, dia 09 de julho de 2014 a mostra de fotografias Physis – Uma homenagem à Akira Kurosawa, de Cristina Oldemburg e junto com todo processo de criação das obras, montagem e outros preparativos para o evento, acontecimentos paralelos colocaram em evidência o seu verdadeiro significado. Para os pré-socráticos o conceito se estende à “natureza”, aos seres viventes e suas relações com o ciclo do nascer, crescer, desenvolver, envelhecer, morrer para nascer novamente. Daí a grande coincidência da vida, quando presenciamos o nascimento, há poucos dias, da mais nova herdeira do sobrenome Potrich, no entanto, paralelamente  nos confrontamos com o adoecimento do pai da artista que promove a mostra fotográfica. Nosso sentimento fica ambíguo diante da felicidade do começo e a incerteza do fim de uma vida.

A natureza é deveras impressionante e enseja ao ecossistema probabilidades de caos e ordem, esperança e dor, vitória e fracasso. A arte imita a vida, ou a vida imita a arte? Entre tantas outras curiosidades dos bastidores do mundo das artes (exposições, vernissages, escândalos, mexericos, vaidades) a natureza se revela sábia e tortuosa, embriagada de lucidez e certamente preocupada com o futuro.

Esse post é um ode às forças da natureza, que impõem à nós, pobres mortais, seus desejos e interferências, como num livro de contos, que nos disserta paulatinamente as misteriosas sagas e destinos a serem percorridos.

Imagem extraída do livro The Krisna Art.

krisna