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Siga o Coelho

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A Páscoa passou e com ela os símbolos dos ovos, do chocolate e do coelhinho. Este bichinho que mais parece de pelúcia de tão fofo, irresistivelmente macio e cativante foi eleito o ícone-mor para esta data. Na edição passada da Revista IC/GO, para quem se lembra da coluna de arte, mas principalmente para quem leu, citei sobre o filme “A Origem dos Guardiões”, que abrange os personagens do Jack Frost, Papai Noel, Fada do Dente… Enfim o Coelhão! No filme ele é representado por um coelho másculo, tribal e atlético, que tem como narrador ninguém menos que Hugh Jackman. É bem legal ver esta nova perspectiva, mesmo porque ele, o Coelhão, é um guardião, um guerreiro, um defensor desta data comemorativa.

“(…) Alguns povos antigos relacionavam este animal com a chegada do fim           do inverno e começo da primavera, como um simbolismo do         “renascimento da vida”.         Os coelhos eram os primeiros animais a abandonarem as suas tocas quando a             primavera começava.”

(apud http://www.significados.com.br/coelho-da-pascoa/ dia 04/04/2016)

Daí o mito do coelho branco de “Alice no País das Maravilhas” (1865) na história de Lewis Carrol, que vai mais além. A sua relação com o inconsciente e autoconhecimento é muito mais profundo que nossa vã filosofia previa.

O tão aclamado ditado: “siga o coelho”, que ganhou adeptos dos finais do século 20, com o filme ficção Matrix, no qual “os membros da resistência eram aqueles que, em algum momento, enxergaram que a vida cotidiana era só uma trama, um programa de computador, uma ilusão. A realidade era um deserto em que os rebeldes lutavam contra ‘as máquinas’ num mundo sem beleza ou gosto” (Eliane Brum). O protagonista, representado pelo ator Keanu Reevers, o Neo, é convidado por uma bela garota, que o conduz até os personagens que o levarão a desvendar  esta realidade nua e crua. Mas o que isso tem a ver com o coelho? Bem, a garota tinha um coelho branco tatuado um pouco abaixo do ombro.

“Nós nunca descobriremos o que vem depois da escolha, senão       tomarmos uma            decisão. Por isso, entenda os seus medos, mas jamais        deixe que eles sufoquem os    seus sonhos. Siga o coelho. Não tenha medo             de entrar em lugares onde você acha que não cabe.” (Bruna Vieira)

A descida de Alice na toca ou a conexão hightech de Neo são ambas escolhas para o autoconhecimento, o sofrimento e a capacidade de enfrentamento ao desconhecido. Pode não ser lá uma experiência cor-de-rosa, com unicórnios e arco-íris adocicados, mas a realidade também não é assim. A senha “siga o coelho” é justamente o inverso da  calmaria, do bem-bom, dos contos de fadas, da tal famosa zona de conforto.

“Essa viagem ao interior de nossas próprias dimensões inconscientes é no   início uma experiência amarga porque corrói e porque é realmente desagradável      para as ilusões da consciência, mas quem paga o preço, arrasa. E encontra paz             interior            e mais auto-estima. Tudo bem que esses não são os prêmios mais cobiçados da   sociedade moderna, mas quem tem, valoriza. Também espera          encontrá-los nos outros           que vão compor sua família, seu grupo, seus queridos.    Não tem pra vender, o status não paga em nenhuma moeda do mundo. “Nosso ouro não é o do vulgo”, diz a           máxima           alquímica.” (Larissa Siqueira)

Outra curiosidade acerca do coelho é o seu significado no horóscopo chinês. Segundo alguns especialistas no assunto o coelho é o signo mais capaz de alcançar a felicidade, então vamos segui-lo, não é?! No entanto tudo tem o seu sentido contrário, o signo de coelho se machuca facilmente, podendo assim sofrer muito com pequenas decepções.

Ainda bem que o coelho tem essa aparência dócil e carinhosa! Dessa forma somos mesmo estimulados a segui-lo. Trago a imagem da obra do artista goiano, Pitágoras que interpreta bem os medos e anseios na nossa era contemporânea. Um mundo robótico e catastrófico que tenta associar a beleza e carisma que advém da natureza, bem dentro deste contexto contraditório dos nossos sentimentos. Desejo e medo, o que atrai e repele…

Sobre Réus, Reis e Reais

Mural para Rodoviária de Alto Paraíso - GO

O título parece soar bem apropriado à atual conjuntura política do país, porém e felizmente para mim, esta coluna aborda sempre a história da arte e da cultura brasileira.

Há tempos acompanho a saga de jovens talentos goianos. Percebi ao longo dos anos que alguns se sobressaíram mais que outros. Uns muitos são grafiteiros. Outros tantos, ilustradores ou designers gráficos. Mas poucos são verdadeiramente artistas de rua. Uma parte desses jovens permaneceu no universo limítrofe de temas constantes. No entanto, àqueles que emergiram e romperam a barreira da mesmice e do déjà vu. Cada um à sua maneira, cada qual com seu estilo. “Cada um na sua!”, como costumava repetir o slogan de uma propaganda de cigarros da minha época.

A questão é que um deles em especial sempre me chamou atenção. Seus desenhos, suas linhas, suas combinações de cores e formas me conquistaram mais. Talvez por causa da simplicidade à qual tanto me assemelho. Enfocou a temática brasileira, o naif ou primitivo, o caipira ou caboclo, o dócil ou selvagem. O talentoso Wesslei Gama Barbosa, o WÉS pintou em largas escalas as várias facetas da nossa multiplicidade étnica e conseqüentemente cultural. Deu continuidade ao brasileirismo um tanto iniciado pelo veterano Decy, que ocupou muros e fachadas do cenário urbano goiano, assim como as ilustrações dos livros de história ocupam as carteiras das salas de aula. Participou de interessantes projetos culturais onde a biodiversidade local e algumas pessoas de cidades do interior do Estado foram retratadas pelo reconhecimento afetivo da comunidade onde vivem. Assim como num ciclo que se renova apresento um curto recorte da história da arte brasileira que remete à nossa formação étnica. O Romantismo marcou a beleza naturalista indígena nas obras ícones: “Moema” (1835), de Victor Meireles e “Iracema” (1881), de José Maria de Medeiros. Entre as décadas de 1920 e 1930, o Modernismo de Cândido Portinari e Tarsila do Amaral marcou a nossa brasilidade com o “Mulato” e o misto racial de “Operários”, respectivamente. A artista contemporânea, Adriana Varejão teve inspiração em um censo do IBGE de 1976, no qual foi feita uma pergunta aberta aos brasileiros: “Qual a sua cor de pele?” e desenvolveu junto à uma indústria de tintas mais de 30 tons de cores. Varejão pintou dezenas de auto retratos na temática da miscigenação para sua mostra “Polvo”, em 2014.

O artista WÉS também levanta algumas questões acerca da miscigenação. Seus temas tampouco abordam a realeza, reis ou heróis. Abordam sim, pessoas reais, pessoas mestiças. Ele enxerga a beleza da simplicidade, a pureza do desapego, a grandeza de ser pequeno. Pinta com ousadia, na cor do ébano, o primeiro casal bíblico e seus descendentes. Enaltece a cultura brasileira enfocando fauna/flora e as registra em becos/vielas, sem medo de hesitar. Mesmo quando a lei o reprime, ou quando a crítica do mercado vigente “torce o nariz”.

WÉS nos propõe críticas e questões sobre a sociedade, resta saber se estamos prontos e dispostos a enxergá-las e solucioná-las. Réus, Reis ou Reais?

Mito e Arte sobre Unicórnios e Rinocerontes

Rinoceronte de Dürer oti

Rinoceronte vestido com puntillas. Salvador Dalí. oti

 

 

 

 

 

A verdadeira origem sobre os unicórnios ainda é uma incógnita, embora cientistas e artistas tentam desvendá-la há milênios. Muito difundido na simbologia da Antiguidade e da Idade Média, conhecem-se, no entanto, escritos sobre este animal muito mais antigos, alguns dos quais remontam o século IV a. C., como os do historiador grego, Ctésias de Cnido, que  redigiu textos sobre alguns animais fabulosos da Índia.

No século XVII o italiano, Dominico Zamperi executou arabesco no Pallazzo Farneze, de Roma retratando o ser mitológico adormecendo nos braços de uma donzela. No mesmo século o astrônomo alemão, Johannes Havelke ou, dito Hevelius  introduziu  a constelação equatorial de Unicórnio, ao norte de Cão Maior.

De poderes mágicos e curativos, o mito selvagem seria domado apenas pela pureza de uma virgem.  Há quem o diga que habitaram a terra nos tempos da pedra lascada (o Elasmotherium sibiricum), ou que uma espécie de ossada com defeito genético variando sua biologia e a exceção da regra, tivesse sido erroneamente catalogada. Talvez por causa de algumas semelhanças, como no caso dos chifres dos narvais, os unicórnios-do-mar ou ainda mais hipotético, às semelhanças com o primo mais próximo, mas não ruminante, o rinoceronte anão, de apenas 1,2m.

Habilidades mágicas e curativas são alguns dos dons deste ser fantástico, que esteve presente em meados dos anos 80 nos famosos desenhos animados, como o da princesa “She-Ra” e “A Caverna do Dragão”, ou no filme A Lenda , de Ridley Scott, que estreou Tom Cruise no cinema. No início dos anos 90 ele é citado numa das séries de “Harry Potter”, escrito por J.K.Rowling e metaforicamente idealizado, por Steven Spielberg em “As Aventuras de Tin Tim – O segredo do Licorne”, de 2011.

De relatos em relatos, lendas ou filmes, ele teria surgido de antigos registros e pesquisas arqueológicas no pêlo branco de um ungulado com um único chifre na testa e com o mito fortalecido através dos contos de fadas.

Li na Enciclopédia Cultural Laureasse que além das cinco espécies ainda existentes de rinoceronte, o rinoceronte-indiano leva o nome, Rinhocerus unicornis. Alguns possuem um ou dois chifres, assim como algumas espécies também se diferem pelo tamanho da boca e temperamentos.  Embora sejam fortes e robustos, apresentam três dedos em cada pata e são animais herbívoros. O rinoceronte-branco é o mais pesado dos mamíferos africanos, podendo chegar a 4 toneladas. Na verdade ele não é branco, é cinza. O nome se deve a um erro de tradução e não à cor da pele.  Com grande risco de extinção, hoje paga se preço de ouro pelo seu chifre. O chifre do rinoceronte é utilizado sob a forma de pó por suas supostas propriedades para aliviar a febre, manter a potência sexual em qualquer idade e até combater o câncer. A caça à esse tesouro vem causando perdas irreparáveis ao ciclo de vida desses animais.

Uma das marcas líderes do segmento de urbanwear, a Ecko escolheu o contorno da figura do rinoceronte como sua logomarca e quando questionado, seu fundador argumenta: “são os únicos animais de quatro patas que não andam para trás”.

Uma famosa marca de carros japonesa aproveitou o lançamento publicitário de um novo veículo, em 2009 e usou a imagem do animal como referência e analogia à sua força, tração e impacto.

No filme de Woody Allen, Meia Noite em Paris (2010), o artista surrealista espanhol, Salvador Dalí interpretado pelo o ator, Adrien Brody, tem uma epifania no meio de uma conversa e cita repetidamente: “I see rinhoceros, I see rinhoceros…”. Bem da verdade é que Dalí executou uma série de obras com o bicho. Rinoceronte vestido com puntillas é uma escultura em tamanho real, do ano de 1956, que está localizada em Marbella, na Espanha. Seus detalhes e referências são baseados no Rinoceronte de Dürer, intitulado assim por causa de seu autor, o renascentista nórdico alemão Albrecht Dürer, que esboçou o animal, em 1515 baseado em relatos descritos sobre um rinoceronte indiano.

No documentário,  A Caverna dos Sonhos Esquecidos (2010), do diretor Werner Herzog, é possível observar um antigo ascendente do rinoceronte nas pinturas rupestres da caverna de Chauvet, na França, há milhares de anos atrás.

A bióloga Nurit Bensusan se inspirou nos versos de Pablo Neruda e escreveu o livrinho Quanto dura um rinoceronte (2012), que trata com seriedade a extinção do animal. As divertidas ilustrações foram concebidas por Taísa Borges.

Ferreira Gullar também entrou na dança e elaborou o livro infantil A menina Cláudia e o rinoceronte (2013), onde a cada página seus poemas expressam a tentativa da protagonista em moldar a imagem do bicho com pedacinhos de papéis.

A idéia de contar um pouco sobre estes mitos surgiu quando, navegando nas redes sociais, encontrei um desenho que ilustrava um rinoceronte em bicas, numa esteira de academia e, ao seu lado, colado na parede, o retrato de um imponente unicórnio branco. A moral da história vinha com o slogan:“Nunca desista de seus sonhos!”

Histórias, lendas, mitos ou fatos os unicórnios e os rinocerontes construíram no imaginário coletivo a crença do acesso ao poder em contraponto à perda da inocência. O bem e o mal, a cura e a doença, a vida e a morte. Duas versões com o mesmo propósito, atingir o poder através do chifre.

Surrealismos e realismos juntos num inesquecível casamento de possibilidades!

Valor Cultural

Flor - Oscar Niemeyer oti

Foi aos 7 anos de idade que Hans Stern começou a freqüentar o atelier do paisagista Roberto Burle Marx, no Rio de Janeiro, início da década de 1940. Vindo fugidos da guerra na Alemanha, ele e sua família se instalaram no berço esplêndido do país tropical e absorveram em primeira mão as maravilhas, os desgostos, sucessos e fracassos deste constante vai e vem da vida, como assim o é nas ondas  do mar. Essa brasilidade tocante despertou no pequeno Hans o desejo pelas “coisas” de tal território, suas cores, diversidades, seus brilhos, enfim, suas pedras preciosas.

Passados mais de meio século, seu primeiro filho, Roberto Stern também despertara acerca das riquezas naturais do país do Carnaval, no entanto confessa que deixou de priorizar as pedras preciosas para valorizar o design das jóias. Essa sacada inspirou o jovem Stern numa estratégia ousada, corajosa e arrojada.  Ele agregou às jóias da marca o status cultural elegendo o conceito e o design da peça antes do “academicismo” da joalheria clássica e o exagerado espaço ocupado pelas pedras. A começar pelo diário de bordo do fotógrafo escocês, radicado em NY, Albert Watson, que assina as belas imagens no catálogo de jóias de 1998. O catálogo é um misto de arte, fotografia, arqueologia e descrições reflexivas, documentadas provavelmente por um cientista social. Suas invenções cenográficas nos levam a crer que uma antiga civilização já cultuava a estética e o design como qualidade de vida, adornados com pinturas corporal, borboletas, lama, fibras naturais e ouro.

A via crucis da ruptura com as convenções da joalheria clássica não parou por aí. Os Stern’s abrangeram tematicamente todas as áreas das artes , como no catálogo Orbis Descriptio, com marcas da cartografia cravadas no metal precioso, assinado pela artista plástica Anna Bella Geiger, ou na moda onde nomes da alta feminidade brilham como Constanza Pascolato e Diane Von Furstenberg, ou ainda no contraste étnico da música urbana de Carlinhos Brown, ou em mais contrastes como no design simples e sofisticado dos Irmão Campana, também nos movimentos da companhia de dança mineira O Corpo e por fim nas curvas arquitetônicas de Oscar Niemeyer.

A H.Stern ousou sem abusar, criou peças com uma sutil delicadeza, respeitando ao máximo as características de cada personalidade, desenvolvendo coleções ultrajantes que põe em xeque os valores reais de uma jóia de design ou de arte. Esse diferencial unânime nas jóias da marca ressalta o valor cultural agregado ao valor de mercado através de peças assinadas por quem tem algo a dizer ou a mostrar.

“A razão é inimiga da imaginação”( Oscar Niemeyer)

O enigmático

tunga oti

Penso ser bem apropriado, nos tempos de hoje, um artista brasileiro ter o apelido de Tunga. Mais comum em países subdesenvolvidos, a tungíase é uma doença infecciosa de pele causada pela fêmea (Tunga penetrantes), o vulgo bicho-de-pé. Antônio José de Barros Carvalho Mello Mourão é o Tunga, um enigmático cidadão do mundo, que além de conservar um mistério acerca da localidade de seu nascimento, sempre nos surpreende com obras estranhamente familiares e extremamente intrigantes. Pois foi assim mesmo que me senti! Acometida misteriosamente pelos sintomas de uma incessante coceira e irritação nos nervos, que ora aliviava, ora agravava, ao meu primeiro contato com o livro “Tunga – Barrocos de Lírios”, editado pela Cosac & Naif, em 1997.

O livro traz uma poética trajetória artística com registros fotográficos e primordial diagramação, dada a qualidade das imagens dos trabalhos e suas descrições. Desde então o que mais me intrigava era o complexo enredo que o artista criara sobre sua obra Xifópagas Capilares (1985). Através de cartas e poemas dum dinamarquês, o texto no livro, intitulado Xifópafas Capilares entre Nós, descreve o mito de origem de um povo nórdico e relata o nascimento de xifópagas e capilares, que gerou discórdia, discussões e desavenças no país. A narrativa abrange atitudes morais da sociedade e coloca em evidência preconceitos e a salvação através do amor. Depois de lido e relido, recordo-me ainda de divagar à respeito da Rapunzel, cujo final da história, em algumas versões, conta que tendo sido cortados seus cabelos pela bruxa, passa longo período de fome no deserto, mas reencontra seu príncipe e vivem felizes com suas filhas gêmeas no reino.

Tunga dedicou este livro à sua mãe e à sua tia.

Em outubro de 2010, numa entrevista do artista à Revista Piauí, dei por mim que suas obras tem um sentido muito mais profundo que supostamente acreditava. Seu avô, Antônio de Barros Carvalho era muito amigo do famoso artista Alberto da Veiga Guignard, que em 1940 pintou a tela, “As Gêmeas”. As irmãs eram Léa, mãe de Tunga e sua tia, Maura. Quarenta e cinco anos depois, Tunga apresenta a performance Xipófagas Capilares, onde duas meninas compartilhavam uma cabeleira enorme.

Trago aqui recente  imagem de Lézart (1989), que está na Galeria Psicoativa de Tunga inaugurada em 2012, no Instituto Inhotim. A sensação que tive ao revisitar sua obra foi aquela coçadinha que alivia e até desperta um certo prazer, entretanto este é apenas o início de uma “infecção psico-artística”. Uma reflexão à respeito de alguns valores humanísticos há de nos penetrar paulatinamente, muito além da pele.

Comungo com as observações do curador Luiz Camillo Osório: “Todo mundo concorda que os trabalhos dele falam do inconsciente, do desejo e da transformação biológica de suas obras, mas esses temas complexos problematizam ainda mais a sua produção (…) apesar de sempre ter tentado entender o Tunga, nunca consegui de fato. A graça dele está nesse enigma.”

xipofagas capilares oti

O prazer do movimento na arte brasileira

Me propus o desafio de fazer um ensaio bem resumido, sem qualquer pretensão, mas com alguma emoção, acerca da surpreendente história da arte brasileira baseado nas minhas experiências, estudos e pesquisas de campo.

O sociólogo pernambucano, Gilberto Freyre trouxe uma interessante passagem do historiador suíço, Siegrief Giedion, no seu livro Casa-Grande e Senzala (1933), em nota de rodapé, sobre o processo de mecanização da rede indígena ou cama brasileira (Brazil bed) e a mecanização baseada em mobilidade:

“Desse processo se aproxima (segundo o suíço), a arte do escultor norte-americano, Alexander Calder (1898-1976), na qual a obsessão do artista pela solução dos problemas de movimento teria encontrado a sua primeira expressão artística. A rede, entretanto, pode ser considerada manifestação já artística do gosto do repouso combinado com o prazer do movimento, que se comunicou dos indígenas da América aos primeiros conquistadores europeus do Continente, entre os quais Cristovam Colombo, em 1492.”

Os indígenas, intuitivamente, já compreendiam bem desde a fenomenologia do filósofo francês Merleau-Ponty às teorias estéticas publicadas no De Stijl, pelo artista neerlandês Theo van Doesburg, apenas em observar o meio ambiente. Do artesanato à arte erudita o salto equivalente se deu através da elaboração de fabulosos cocares, minuciosas tecelagens e trançados em palha, sofisticadas pinturas corporais e as formas orgânicas em artefatos domésticos e utensílios para caça e pesca perfeitamente confeccionados para o uso diário.

O esmero do trabalho artístico indígena traduzia uma celebração à vida, aos deuses e principalmente à natureza.  Acredito que a arte brasileira nasceu deste contato puro e ingênuo com a terra, com o movimento das águas e a biodiversidade. Foi a inexata geometria indígena que inspirou nossos primeiros artistas, nossos mestiços, antropófagos, grupos revolucionários ou de ruptura, à frente de seu tempo, neoconcretos, verdadeiros vanguardistas. Depois da Revolução Industrial, do Futurismo, do Suprematismo, do Abstracionismo e demais “ismos” que vieram do outro lado do oceano, ascenderam se as faíscas para uma retomada às referências genuinamente brasileiras.

A Semana de Arte Moderna (1922), como efeméride da Independência da República, teve sua grande parcela de responsabilidade quanto à ânsia de nos alimentarmos das culturas alheias, no entanto foi o Movimento Neoconcreto (1959) quem abraçou a pureza das formas e cores se aproximando mais ainda das nossas origens, dos efeitos geométricos em constante transição, da graça e mistério na interação com as obras, do prazer combinado com o movimento.

O Neoconcretismo catalisou os efeitos seguintes da arte brasileira se desdobrando em ideais de interatividade como em obras da Nova Objetividade na década de 60, transmitindo posteriormente estes mesmos ideais para obras conceituais da década 70, assim como a poesia concreta da década de 80, em movimentos urbanos, que democratizam e interagem com a cena da cidade como o grafite, se expandindo na fotografia, artes cinéticas, robóticas e ainda invadindo a linha tênue entre arte e design em projetos de iluminação, gráfico e moda.

O prazer do movimento associado à participação ativa ou passiva sempre fez parte da nossa cultura, ele apenas descobriu outros meios de se manifestar artisticamente ao longo dos séculos!

Hélio Oiticica e Neville D’Almeida, Cosmococa 5 Hendrix War, 1973, projetores, slides, redes, trilha sonora (Jimi Hendrix) e equipamento de áudio, dimensões variáveis, blog Instituto Inhotim oti

Crédito para imagem: Hélio Oiticica e Neville D’Almeida, Cosmococa 5 Hendrix War, 1973, projetores, slides, redes, trilha sonora (Jimi Hendrix) e equipamento de áudio, dimensões variáveis. Blog Instituto Inhotim

Uma carta para Léo

leo

Caro Léo,

impulsionada pela admiração e orgulho que tenho dos talentos goianos, me dei a liberdade de relembrar alguns momentos de minha vida em que você esteve presente.

Recordo de sua visita para uma conversa serena com minha mãe, Marina Potrich, nos fiz dos anos 90, na nossa Galeria de Arte, no Jardim Goiás. Vocês articulavam uma exposição muito mais criativa e ousada que a recém terminada mostra de desenhos seus, em 1998. Recordo ainda da minha ingênua aproximação, assim como uma aluna solicita ao mestre (na época você lecionava na UCG), para me auxiliar no desenho técnico de uma obra do artista Amilcar de Castro. Pobre de mim, horas intermináveis para que você solucionasse em segundos.

Dois anos depois, em 2001 você apresenta a mostra individual “Quadrado Entre Aspas”, um misto de objetos de arte, mobiliário e peças de decoração. Exponho entre minha singela coleção de arte, no entanto, exibo apenas para os íntimos, a luminária em placa de vidro na caixa de madeira que vem com a exclamação: FAÇA SEXO!, entre cores quentes e frias, que fez parte da mostra. Amo toda vida!

Em 2006 você aceita, para nosso enriquecimento cultural, ministrar a palestra sobre sua visita à feira de móveis de Milão para o Projeto Cultural “Olhar Crítico sobre a Arte”. O projeto aprovado através da Lei de Incentivo foi um circuito de palestras realizado em nossa Galeria de Arte, onde você selecionou imagens do trabalho dos brasileiros Irmãos Campana que se destacaram na feira, além de expor seu ponto de vista e perspectivas sobre arte e design!

Mas foi em 2008 que eu vi você sair literalmente da zona de conforto e se arriscar numa área que reluz. A mostra de jóias no Centro Cultural Oscar Niemeyer, na minha opinião, foi a mais surpreendente de todas as mostras de arte já realizadas por lá. Seu talento e a composição estética da montagem e curadoria ficaram expressas em pequeninas miudezas valiosas. O contexto artístico aliado ao design tomaram formas majestosas em suas jóias, suas fotos, suas tatuagens, sua pele e seu pêlo. Você se “despiu” de dogmas e paradigmas e eu delirei!

Em 2011, depois de visitar a Casa Cor (donde pairava um estrondoso banner de um boneco nu com o seu rosto impresso), folhear seu livro, admirar sua arquitetura, ler as caseiras confissões do companheiro Marcelo e refletir sobre o texto do amigo Jean Bergerot , decidi por fim,  reproduzir a última frase que te define tanto:

“E hoje, depois de tantos anos eu descobri que quanto mais ele se doa, maior ele fica.”

Daí por diante dispensarei mais recordações a não ser quando nos encontramos há uns dois ou três anos atrás, na piscina olímpica do condomínio onde mora e você me cumprimentou diante de algumas crianças que brincavam por ali, e após um ligeiro mergulho, se despediu. Uma deles me perguntou quem você era e eu novamente ingênua respondi: “Ele é o Léo Romano, um dos maiores arquitetos do Estado de Goiás.” Se fosse hoje teria dito que é também um dos maiores designers do nosso país!

Léo, continue nos encharcando com suas chuvas de criatividade!!!                                                                                                                                                                                                                                                                                        Atenciosamente,                                                                                                                                               Tatão

JÓIAS, CHAMPAGNE E LUXO PARA TODOS

hotel + campana

O maior concurso de jóias do mundo realizado pela AngloGold Ashanti promoveu, em 2006, uma videoconferência com transmissão para mais de oito capitais  do país, onde estive presente, em Brasília. A videoconferência foi ministrada por várias entidades, dentre elas o presidente da mineradora e a dupla de designers brasileiros Humberto e Fernando Campana. A palestra se deu entre imagens avassaladoras do Brasil como o Carnaval, as favelas, os aterros sanitários, o artesanato popular e os camelódromos, as praias e as mulheres, a biodiversidade e finalmente as contradições sociais de um país tão grande e diversificado. O objetivo foi instigar o grupo de ouvintes a uma investigação minuciosa de nossas origens e a capacidade de organização das imagens e idéias à pesquisa do produto final, isto é a jóia conceitual. Este foi meu primeiro encontro indireto com a dupla, que esplendorosamente nos deixou uma mensagem muito sincera, o inusitado se encontra nas coisas mais simples.

 

No ano de 2010 finalmente os conheci pessoalmente no lançamento do livro Complete Works Campana Brothers (so far), numa loja de decorações em Goiânia. A mostra de design trouxe alguns dos mobiliários da dupla, como a linha de cadeiras Sushi e, claro a presença dos designers para a noite de autógrafos. Simpáticos e pacientes, Fernando e Humberto curtiram a tietagem goiana e nos contemplaram num encontro com a magnitude do design brasileiro que foi e é reconhecido e premiado mundialmente. Desde o mais experiente profissional ao mais curioso e inocente convidado, as formas, cores e materiais atraíram os olhares e atenções, isso porque suas obras transcendem as fronteiras entre arte e design. Eles ignoram todas as convenções do design tradicional, brincam com a noção de funcionalidade e formam seus objetos poéticos a partir de realidades contraditórias.

 

Humberto queria ser índio. Fernando astronauta. Os irmãos faziam os próprios brinquedos desde crianças e a infância no campo foi determinante em seu trabalho. Conta Humberto, em entrevista à Revista Casa Claudia que, “… a gente queria fazer uma fusão entre caipira e urbano (…). Vivemos num país naif, caótico, colorido e, logo percebemos que teríamos que trabalhar com a imperfeição.”

Uma dessas imperfeições foi parar no Hotel Du Marc, na França. “La Gloriette” dos Campana foi feita sob medida para a Veuve Clicquot. Nos antigos palácios europeus, desde o século XII e hoje, em espaços que possuem áreas para jardinagem, a edificação gloriette (gloire do francês que significa pequeno cômodo) é muito apreciada por moradores e visitantes. Situada em local alto de destaque a obra é um misto de técnicas arrojadas e do romantismo do século XIX, num moderno gazebo que simula o crescimento das vinhas. Sua cor faz alusão às folhagens dos vinhedos e principalmente ao rótulo do champagne mais desejado do mundo.

O luxo de suas criações vai além do mobiliário. Os Campana em parceria com a joalheria H.Stern criaram uma coleção formidavelmente criativa e inusitada. Movimentos, articulações e originalidade são um dos adjetivos das jóias que mais se parecem obras de arte. Inspirado nas madeirites, nos papelões de embalagem, tubos plásticos, cordas, ralos, casulos e texturas orgânicas a dupla nos surpreendem quando integra o rústico à técnica da ourivesaria. Roberto Stern, em prefácio do catálogo Campana descreve: “São ousadas, uma ruptura com o tradicional e um passo adiante em tudo que é feito atualmente em joalheria. O resultado foi registrado neste catálogo pelo olho mágico do fotógrafo suíço Michel Comte. Ninguém mais sensível do que ele, que divide seu tempo entre fotos de celebridades e de guerras, para interpretar um trabalho nascido de contrastes.”

 

Mas não só os nobres têm acesso aos produtos Campana. A marca Melissa lançou uma linha de sapatilhas e bolsas assinadas pela dupla. Também foram convidados pela grife francesa Lacoste para inventar, brincar e adestrar seus lindos jacarezinhos. É verdade que algumas peças tiveram edições super limitadas, contudo os designers também formataram suas embalagens exclusivas, em palha e lona.

 

Em comemoração aos 150 anos do Grupo Monte-Carlo SBM, a dupla abriu a mostra Dangerous Luxury que foi até o dia 20 de julho deste ano, no Salão Sporting d’Hiver, em Mônaco, onde interrogou o público acerca do conceito do luxo e sobre como um objeto popular ou do cotidiano pode se transformar em objeto de luxo.

 

Simples e sensíveis estes sonhadores transformam o lixo em luxo, o rústico em sofisticado, o artesanal em larga escala. Adeptos à sustentabilidade e trabalhando pela “humanização do design”, tem como prioridade o respeito ao meio ambiente e a natureza. Carinhosamente relembram a infância na cidade de Brotas, em São Paulo e guardam lembranças de histórias e feitos, como a primeira casa na árvore. Enquanto Humberto cria seus objetos como um artesão e artista autodidata, Fernando participa como um arquiteto experiente. Uma união perfeita entre familiaridade e  profissionalismo. Um casamento que realmente nos enchem os olhos e a alma! Vida longa ao talento desta dupla brasileira!

 

TATIANA POTRICH

Capueira

Miguel Rio Branco oti

Foi no dia 26 de novembro de 2014 (para quem ainda não soube), que a Unesco a reconheceu como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Também porque necessitava me manifestar a respeito do tema, mas ainda não havia chegado o merecido reconhecimento. E por fim, ninguém menos para ilustrar o sucinto texto como a foto do artista Miguel Rio Branco. A cena foi registrada em Salvador, no ano de 1989, na qual três corpos parecem desafiar a gravidade. (Imagem extraída da Coleção Folha Grandes Fotógrafos – BRASIL)

Rio Branco é um cidadão do mundo, nasceu na Espanha, mas se criou nos arredores europeus, nova-iorquinos e finalmente se estabeleceu no país verde-amarelo.  Com uma visão imparcial da cultura brasileira e sensibilidade fotográfica para registrar a realidade nua e crua, no entanto temperada à óleo de dendê e vatapá, o artista ultrapassa a barreira de ensaio etnológico para o verdadeiro estado visceral das “coisas”. A começar por sua obra Blue Tango (1984), onde dois garotos demonstram o bailado brasileiro, a ginga de raiz africana e de nome indígena, numa fotomontagem de 20 imagens. Uma das definições sobre o título desta obra, como a do blog Kindred Subjects, sugere que as silhuetas dos dois capoeiras que, ora está em cima, ora em baixo, numa penumbra azulada, remeteriam os movimentos das ondas do mar, dada a longa viagem dos africanos até chegarem a terras brasileiras. E ainda o termo tango, que em sua época inicial era dançado apenas por homens.

Registrada ao longo dos tempos por inúmeros artistas estrangeiros e nacionais como Rugendas, Debret, Carlos Bastos, Carybé, Bruno Giorgi, Pierre Verger, Mario Cravo Filho, ZèCésar, André Cipriano e outros, a capoeira reconta visualmente a história brasileira através dos estilos artísticos os quais foi sendo expressada. No início eram as ilustrações, principalmente das missões científicas do século XIX, cujo o zoólogo alemão,  Johamm Baptist Spix, foi um dos integrantes e responsáveis pela identificação de mais de 3.400 espécies, onde uma delas é o conhecido pássaro uru, o odontophorus capueira spix. Depois veio a fotografia como recurso tecnológico mais definido, rápido e alternativo. Além das demais técnicas como gravura, escultura, pintura e instalação que fizeram parte do “roteiro” plástico desta manifestação cultural. Ícone da brasilidade e peça mestra na roda de capoeira, o berimbau foi tema da obra do artista mineiro Paulo Neflíndio, selecionado para o 3° Prêmio Flamboyant, em Goiânia,  no ano de 2003, com a obra Berimbau Digital. O curioso é que foi também em Goiânia, no ano de 1974, que faleceu o baiano, Mestre Bimba, criador e promotor da Capoeira Regional.

Sim, a capoeira é uma ave galiforme. Ela não voa tão alto, mas desafia a gravidade com elegância e fugacidade. Ela pode ser um cesto de taquara, pode ser um mato abandonado, pode ser um quilombola, pode ser um capão ou um capitão do mato, pode ser a tribo indígena uru ou urubu, pode ser tupi ou guarani, pode ser kimbundo, pode ser vissungo. Ela pode ser luta, dança, jogo, magia, arte, cultura brasileira.

“A capoeira é tudo que a boca come e tudo que o corpo dá”, assim disse Pastinha!

Salve, camará!

A excelência em arte e paisagismo

Gilberto Elkis

O palácio de Versalhes tem fama consolidada pela sua exuberante arquitetura e decoração, como também pelo paisagismo e avançada engenharia hidráulica de suas fontes e espelhos d’água. A devoção e ousadia dos “artistas-jardineiros”, como o queridinho do rei Luiz XIV, André Le Nôtre (arquiteto, paisagista, urbanista e colecionador de arte), que se dedicou durante anos, exclusivamente às podas e sofisticação dos labirintos geométricos em uma incansável busca pela perfeição obteve, ao longo dos tempos, grande sucesso e reconhecimento mundial. A herança deste talento com a natureza é um legado francês transferido para o Festival Internacional de Jardins, em Chaumont-sur-Loire, à 200 km de Paris. O castelo, que foi antiga propriedade da Rainha Maria de Médicis e, atualmente nomeado pela Unesco Patrimônio Mundial da Humanidade, desde 1992 é uma galeria  à céu aberto e ainda abriga obras de arte de renomes internacionais, no interior de seus cômodos. Dentre elas está “Momento Fecundo”, do brasileiro Henrique Oliveira.

Outra grande presença da arte contemporânea internacional, no jardim do castelo francês é o artista italiano, Giuseppe Penone, famoso por suas intervenções na paisagem e em ter seus trabalhos transformados pela vegetação. Criou, para a comemoração dos 400 anos de Le Nôtre, 23 esculturas que foram espalhadas nos jardins de Versalhes, ao longo do eixo do Grande Canal.  Penone também está presente na maior galeria de arte à céu aberto da América Latina, o Instituto Inhotim. Sua obra “Elevazione”, parte da modelagem e conseguinte fundição em bronze de uma castanheira centenária, à qual outras partes de árvore foram soldadas. A grande árvore de metal está presa ao chão por pés de aço e, plantadas ao seu lado, estão cinco outras árvores que, ao longo dos anos, irão crescer e se aproximar da escultura, como se a sustentassem e criassem um espaço arquitetônico para abrigá-la. Um diálogo constante de transformação entre arte e natureza.

Idealizado por Bernardo Paz e projetado pelo paisagista Roberto Burle Marx, o Instituto Inhotim é um verdadeiro parque botânico e artístico, com programas e oficinas que beneficiam a pesquisa multidisciplinar entre música, dança, artes plásticas, jardinagem, botânica, artes cênicas, agronomia e muito mais. Com galerias de arte espalhadas pelos mais de 8 hectares de jardins, as esculturas em madeiras ou bancos, do gaúcho Hugo França são outro espetáculo à parte. Esculpidas a partir de resíduos florestais, França cria verdadeiras obras de arte ou de design. Sim, elas servem para um repouso! E ele ainda tem uma produção de móveis residenciais! Sorte nossa!

O fascínio que temos ao nos depararmos com a natureza em perfeita harmonia com a criação artística, seja pelo paisagismo, seja pela intervenção de uma obra de arte é simplesmente gratificante. A sensação é de estarmos num conto de fadas, no país das maravilhas, na casa de Edward mãos de tesoura (como bem intitulou a revista Casa Vogue, do mês de setembro) é inspirador.

Neste mesmo mês participei do Earq 2014, evento de arquitetura e design realizado no Centro Cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia, que teve como objetivo um circuito intenso de palestras. No último dia assisti à fala do paisagista Gilberto Elkis, que explanou em imagens de alguns de seus trabalhos, a arte e a delícia de trabalhar diretamente com a natureza. A ciência e a delicadeza de esculpir a planta, encaminhar o curso da água e desenhar o caminho das pedras.

A excelência de integrar a vegetação ideal para cada ambiente e realizar um sonho verde no quintal, na varanda ou no “puxadinho” está no compromisso com a dedicação, o respeito e o uso consciente dos recursos que a natureza oferece.

Os jardins verticais ou de Monet, as pontes sobre espelhos d’água, as quedas d’água ou fontes, as hortas mandalas, o húmus, os cascalhos, seixos rolados, cascas de eucalipto, bambus, tocos, tijolos, garrafas pets, britas, pneus, engradados, sapatos velhos, tudo são recursos para se criar e imaginar um universo de verdes possibilidades. Os artistas, designers, arquitetos, paisagistas, jardineiros também são cientistas, médicos, curandeiros. Nada melhor para alma que ter um lugar de paz, para ser feliz, para se sentir mais humano, mais natural, mais vivo!

Paisagismo e arte juntos são imprescindíveis para um inesquecível casamento com a natureza.

Faço votos que se perpetuem!