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A cama

É verdade que nos últimos cinco anos venho me deliciando com filmes de animação infantil, mas não é só porque meus filhos adoram, eu confesso: gosto e reflito muito sobre eles. Tanto pela desmistificação das princesas como no caso de “Enrolados”, “Frozen”, “Valente”, tanto pelo ponto de vista crítico e bem agressivo que o roteiro e os personagem tomam ao correr do filme. Me recordei recentemente de “A Origem dos Guardiões”, baseado no livro de William Joyce, onde o enredo trata de uma ‘liga da justiça’ de entidades, que de uma forma ou outra pertencem ao nosso universo como o Papai Noel, o Coelho da Páscoa, a Fada do Dente, o Sandy-Man, o Jack Frost e o Bicho-Papão! Bem, mas o que vem ao caso é uma cena específica do filme, onde uma voz do inconsciente chama o protagonista a investigar o seu misterioso passado. No entanto ele tem de entrar num buraco negro onde se encontra a carcaça de uma cama de madeira, que ele termina de quebrar, desobstruindo o estrado que ainda restava, com seu cajado mágico. Penetrando o buraco ele descobre o que não deveria e assim toma consciência de suas responsabilidades e atitudes.

De fato, quem assiste ao filme pode ou não perceber estas singularidades, mas como meu envolvimento com a arte, em todas as suas expressões está intimamente ligado uma à outra, a relação que me veio de imediato foi com a obra do artista goiano, Luiz Mauro. Mesmo que ainda tímido no circuito virtual, Luiz Mauro é um veterano, premiado nacional e internacionalmente e frequenta seu atelier religiosamente, pintando sem pressa, sem holofotes ou selfies! Com poesia e informalidade, ele mesmo descreve sua função:

“Meu trabalho está conectado com os anseios, as dores, a solidão e o vazio que têm caracterizado a sociedade contemporânea. Na infância eu já manifestava interesse por arte e uma certa habilidade para o desenho. Mas foi somente aos 16 anos que tive contato com a pintura. E foi um contato muito envolvente. De imediato percebi que era o que eu queria fazer. A partir daí comecei a freqüentar ateliês e exposições. Contei com a paciência de muitos artistas, como Siron Franco, Carlos Sena, Omar Souto, Gomes de Souza, entre outros. Foi nessa idade que comecei a pintar.”

O artista veio da Geração 80, ligada à pintura. Desenvolveu uma linguagem contemporânea quando administrou a técnica das HQ’s nas telas em grande formato, com temas humorados e paradoxais. Luiz tem um trabalho expressivo e minucioso. Tem a paciência de um monge para dialogar com a tinta à óleo e seus vários experimentos, como as folhas de ouro e sua oxidação, a têmpera, a aquarela, o desenho em nanquim ou lápis 6B, além das aulas de arte que ministra em desenho e pintura. A cama é quase que a figura central de seus temas. Atualmente, para nossa felicidade, ele vem produzindo suas caminhas em esculturas delicadas, suaves, lindas, porém impactantes. Estas não são camas para sonhar, mas para pensar!

 Lugar onde há sonhos ou pesadelos, onde se deitam filhos ou se deleitam amores, onde debaixo vive o Bicho-Papão, ou se descobre uma grande invenção! A cama é onde passamos um terço de nossas vidas e nela acontecem viagens e miragens que só quem sonha sabe contar o que realmente são! Inevitavelmente é nela também que sofremos, nos repousamos durante um resguardo, nos refugiamos para um choro, um grito, um momento de solidão! Ela sim, é nossa maior amiga, pronta a nos receber, a nos aconchegar, a nos esfriar ou esquentar!

Obrigada, Luiz por estabelecer essas conexões invisíveis, pois querendo ou não o artista é o responsável pela ciência da arte! Cabe à quem a observa entrar no fundo do buraco negro para se descobrir!

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A Origem da Obra de Arte

Desde muito cedo as crianças vem aprendendo a importância do meio ambiente e as transformações a que está sujeita, nos tempos atuais. Não me recordo de muitas considerações sobre a importância da água e sua economia, ou de separar o lixo orgânico do reciclável, ou ainda do dióxido de carbono no ar, quando tinha a idade do Igor, meu filho mais velho, isto é, quando tinha meus 6 aninhos.

Hoje lemos juntos um texto de sua escolinha sobre o planeta Terra. O título era “A doença da Terra” que contava o diálogo entre o Sol e o nosso planeta, onde tentavam juntos diagnosticar uma suposta doença que afetava a Terra com tosses e espirros. O Sol queria de imediato lhe receitar um xarope, mas a Terra rejeitou o remédio alegando que não adiantaria em nada se os homens não parassem de poluir as águas com o lixo, o ar com a fumaça das fábricas e a devastação das florestas, arrancando indiscriminadamente suas árvores. As questões da tarefa de ciências era para uma criança de 6 anos, mas poderia ser para qualquer cidadão do mundo.

Realizamos recentemente uma visita ao Instituto Inhotim. Lá descobrimos que existe uma possível solução prática e criativa para se preservar a natureza e ao mesmo tempo se divertir com arte. Lá temos a impressão de que a Terra respira um pouco mais aliviada. Os lagos, as plantas, as galerias de arte, as hortas e a biblioteca com centenas de títulos sobre botânica se relacionam entre si, para um mesmo fim, procurar um sentido mais humano de viver, mais natural, mais ecológica e artisticamente correto.

Um exemplo é a obra de Marilá Dardot, A Origem da Obra de Arte. A obra constitui um convite para a interação do espectador, instigado a compor palavras e sentenças e a distribuí-las pelo campo. Cada letra tem o feitio de um vaso de cerâmica (ou será o contrário?) e, à disposição do espectador, encontram-se utensílios de plantio, terra e sementes. Para abrigar a obra e servir de ponto de partida para a criação dos textos, foi construído um pequeno galpão, evocando uma estufa ou um ateliê de jardinagem. O título da obra faz referência a um clássico da Estética, a célebre conferência de mesmo nome do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), proferida em 1936, na qual o pensador aproxima o conceito de arte daqueles de “verdade” e de “ser”, sugerindo que comecemos a entender a arte pela obra de arte. A peça de Dardot é um marco inicial no interesse da artista pela linguagem escrita como matéria-prima e associa-se à sua pesquisa sobre as práticas de escrita e de leitura. O que está em jogo aqui é o conceito de obra enquanto possibilidade de realização. A imagem do “canteiro de obras” é emprestada para criar um campo de possibilidades de experimentação para o acontecimento e a construção da obra de arte. Plantar palavras, semear ideias, é o que nos propõe o trabalho. No contexto de Inhotim, onde natureza e arte dialogam de maneira privilegiada, esta proposição se torna, de certa maneira, mais perto da possibilidade.

Mesmo que ainda nem tão privilegiados poderíamos também adotar a possibilidade de semear ideias dentro da realidade em que vivemos.

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Quando questionado sobre qual seria o nome da doença da Terra, Igor a denominou como A Mau Criação dos Homens. Acho que ele tem razão! Chega um momento que todo homem mau criado acaba tendo o seu castigo. Não é só o calor, ou as epidemias, ou o alto custo de vida ou a falta de água que reflete as consequências das nossas ações é o que temos dentro do coração. Se agirmos com mais prudência, menos consumo, mais natureza, menos sintéticos, mais amor talvez ainda dê tempo de semearmos as plantinhas para que cresçam, se desenvolvam e deem frutos.

Mas temos de plantar!

O concreto em mim

Hoje curti a página do cantor, compositor e poeta Arnaldo Antunes.

Provavelmente ele foi tão importante na minha vida quanto o Lenine, ou até mais! Uma vez titã sempre titã!

De fato sua poesia me conquistou não somente pela assimetria dos versos e rimas, mas sim pela dança geométrica das palavras e seus significados! Significativas elas são, tanto num contexto político, quanto romântico! Foi por causa dela, da poesia concreta de Antunes, que iniciei minha pesquisa para conclusão de curso em Filosofia da Arte, na IFITEG/UEG, em 2005. Tudo aquilo, todas aquelas palavras desenhadas me remetiam à Augusto de Campos, à Geraldo Barros, à Hélio Oiticica, Lygia Clark, Franz Weissmann, Amílcar de Castro…

As formas, os símbolos, os ideias… Decidi nomear minha monografia de “O Movimento Neoconcreto e alguns desdobramentos contemporâneos”. Divaguei sobre alguns artistas e obras de arte marcantes de cada década, como os Bichos de Lygia Clark , os Penetráveis de Hélio Oiticica (1950/60), as intervenções nas garrafas de Coca-Cola por Cildo Meireles (1970), os poemas de Arnaldo Antunes (1980/90) e por fim o grafite de Alexandre Órion (2000 em diante)!!! Um pouco de viagem mesmo, mas tudo com ponto de vista convergente ao idealismo neoconcreto, escrito por Ferreira Gullar, em 1959. Gullar defendia o Manifesto Neoconcreto como uma arte interativa, participativa em relação ao seu observador. A ideia central era que o espectador também fizesse parte da experiência da arte, isto é, que a tocasse, a rondasse, se integrasse à ela.

Todas as obras de arte, direta ou indiretamente, cumprem este objetivo, mas num contexto neoconcretista, as obras acima citadas atingiam as metas do meu projeto de pesquisa. Os fundamentos de Merlau-Ponty e sua fenomenologia também acrescentavam conteúdo para a explicação de toda essa miscelânea artística.

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Porém o que me fez retornar aos poemas de Antunes com essa minha nostalgia acadêmica, foi um artista goiano, que foi chegando de mansinho e garantiu seu espaço no circuito cultural com delicadeza, gentileza e talento. Os finos fios de ferro de Evandro Soares emergiram da bidimensão como um truque de mágica. As sombras, a geometria, as falsas ilusões de ótica deixaram bem claro que o truque é mesmo de mestre. Evandro preencheu uma lacuna da arte goiana, que ainda não havia sido completada. Um artesão, um artista, um exímio escultor que molda o metal na sua forma mais bruta para colocá-lo logo em seguida, flutuando no ar.

Mais um desdobramento contemporâneo, se fosse ainda tempo de o inserir na minha monografia. Sua obra se faz concreta e viva, quando nos locomovemos ao seu redor, quando ela muda de forma, transforma seus ângulos em retas, suas sombras em continuidade do ferro e seus fios em leves esculturas flutuantes.

O concreto e neoconcreto da arte não se explica, apenas se sente…

Mais Made in Brasil

Goiânia acaba de ganhar mais uma loja conceito que dará muito o que falar. Com ares de galeria de arte e design, ora com o pezinho no barroco, ora com pezinho na mata atlântica ou floresta amazônica, a Identidade do Design ou simplesmente ID+D abriu suas portas nesta última quinta-feira (25/09), com elegante coquetel e surpreendente ambientação orgânica. Orgânica porque a curadoria das peças foi garimpada e selecionada à dedo, seja pelas formas naturais da madeira esculpida pelo gaúcho Hugo França, seja pelas ripas encaixadas uma na outra sugerindo os galhos das árvores ou compensados em formas de bolas em design arrojado do paulista, Paulo Alves ou ainda nos papeis e pedras polidas do mineiro Domingos Totora.

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Banco Pedra e banco Bola, Paulo Alves

Sim, esta é uma loja orgânica. Não sou eu quem o diz, mas a jabuticabeira mais que balzaquiana que nos recepciona à sala principal, com pé direito de 6m de altura. As empresárias e sócias, mãe e filha, Fátima e Inês Paniago e Mariana Diniz organizaram tudo com sensível habilidade de decorar com arte e natureza. Com pitadas femininas à tira gosto das delicadas peças da designer Rosa Pinc e saborosos cuidados na ambientação pela designer Maria Cândido Machado. A organicidade do espaço fala por si só!

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Abajur em cerâmica reciclada, Rosa Pinc

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Obras de arte: desenhos de Pitágoras e cerâmicas de Antônio Poteiro

Quanto às obras de arte, grandes nomes do circuito nacional e internacional se misturam em formas, técnicas e texturas. As fortes e corajosas figuras do universo de Pitágoras se somam às esculturas de cerâmica de Antônio Poteiro e aos traços característicos de Marcelo Solá. As doces e amanhecidas imagens da mata atlântica aparecem sob o olhar da fotografia da carioca, Cristina Oldemburg, que dialogam com os ilustrativos desenhos de árvores do mineiro, Carlos Cordeiro. Nas salas superiores concentram se os goianos, o veterano Siron Franco, o premiado Sandro Gomide e o promissor Gustavo Rizério.

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A loja com o design de Maria Cândido Machado e fotografias de Cristina Oldemburg

Temos grande prazer e orgulho de fazer parte desta empreendedora aventura orgânica, que estas maravilhosas profissionais tanto se empenharam e que tanto nos surpreendeu. A ID+D é um ode à natureza, às formas naturais do design e à tão sonhada sustentabilidade. Mais arte, mais design, mais organicidade.

Mais made in Brasil!

E o que dizer do EARQ 2014?

Definitivamente não saberia por onde começar a descrever este intenso evento de design e arquitetura fosse por um insight visual ou virtual que me acometeu de uma possível relação entre duas gerações distanciadas pela informatização.

Muti Randolph, um carioca da gema obcecado pela tecnologia em grandes proporções luminosas, com formação em Comunicação Visual e Design Industrial, pela Universidade Católica do Rio de Janeiro, foi o segundo palestrante do primeiro dia do EARQ realizado no Palácio da Música, no Centro Cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia. Randolph compartilhou com a plateia algumas de suas experiências e vez ou outra contou os processos de criação e curiosidades dos backstages das montagens e seus inusitados resultados. Alguns de seus trabalhos estão disponíveis para ver e ser deliciados como o cenário do Arte 1, onde foi criado uma parede em módulos retangulares de madeira que permitem que a projeção da luz alterne a cenografia do espaço sem necessidade de mudança da própria parede.

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muti arte 1 I

muti arte 1 II

Outro impressionante trabalho que criou e participou do The Creator Project foi a obra Cubo, uma instalação com centenas de luzes alternavam suas cores a partir da música tocada.

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muti the creator Project

As imagens e vídeos expostos em três grandes telões da palestra me forçou o resgate de um senhor muito importante na história da arte, “o pai da Op Art”, o húngaro Victor Vasarely (1908-1997). Abstrata a partir de 1947, sua obra, marcada de início pelos trabalhos do Stjil e da Bauhaus, desenvolveu um vocabulário de arte cinética. As unidades formas-cores podem ser fabricadas industrialmente (e portanto integradas na arquitetura), editadas em múltiplos, codificadas e até programadas pela eletrônica. Aqui a Fundação Victor Vasarely, em Aix-en-Provence, na França, onde ele colocou em prática essas teorias.

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Assistir a palestra do carioca foi como se estivesse vendo a obra do húngaro em movimento luminoso. As alternâncias de formas geométricas, com cores e seus sons integrados comprova o inconsciente coletivo de pessoas distanciadas pelo tempo, mas que compartilham da mesma idéia e processo criativo.

Muti extrapola os limites da luz quando projeta em grandes escalas imagens 3D (sem óculos!) e também quando cria instalações para tornar possível a tridimensionalidade da luz.

Vasarely já havia feito isso tudo, mas sem toda essa tecnologia de leds e informatização, pesquisou a luz para terceira dimensão, projetou cores e formas geométricas em suas obras bidimensionais e executou projetos arquitetônicos que foram verdadeiros marcos para pesquisa 3D.

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O que dizer do EARQ 2014?

Ora, essa fora uma das nove palestras ministradas em intensos três dias de evento e posso dizer sem sombra de dúvida que foi enriquecedor para meu conhecimento sobre a interdisciplinaridade entre arte, design e arquitetura.

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No texto,  “A arte urbana de Henrique Oliveira”, Aracy Amaral traça uma bela dissertação sobre o trabalho do artista, suas técnicas, suas obras, sua “rusticidade agressiva” e uma sensível metáfora de sua estética:

“É a fase de afirmação de Oliveira, quando as ondas violentamente encapeladas de suas superfícies sugerem o movimento mais fascinante para o surfista audacioso. Orgânicos, verdadeiros tsumani sempre, pela quase vertigem de suas ambientações. É a fase elaborada com restos, dejetos catados, buscados, encontrados e montados em suas instalações.”

Meu primeiro contato com a obra de Henrique Oliveira foi no ano de 2005, em Goiânia, no Salão de Arte Nacional de Goiás, 5° Prêmio Flamboyant, uma iniciativa do crítico de arte Divino Sobral e uma competente equipe de jurados, montadores e monitores.

henrique oliveira tapumes 2005

A obra, “Tapumes” é verdadeiramente impressionante quando diante dela estamos. Não só pela dimensão, mas pela plasticidade, cores e diálogo que ela exerce sobre o espectador. Creio que a entrada desses pobres materiais numa instituição de arte também chama muito a atenção. Mas a forma como Henrique Oliveira os molda, posiciona e os insere no espaço são a tônica de sua inconfundível característica artística. Não é à toa que sua atual instalação, a “Transarquitetônica”, no MAC, em São Paulo é parada obrigatória aos amantes da arte contemporânea.

henrique oliveira transarquitetonica 2014

Engraçado analisar a obra do artista como estando dentro ou fora da instituição. Em entrevista à FolhaSP ele comentou sobre sua experiência na 7ª Bienal do Mercosul, no ano de 2009, em Porto Alegre onde percebeu que as reações dos espectadores eram mais inesperadas, pois sua instalação fazia parte do lado externo da casa. Algumas pessoas vislumbraram sua estética, outras acreditavam que seria um atrativo para ratos e baratas. Será?

henrique oliveira bienal mercosul

Dentro ou fora das instituições, o artista domina a técnica desses materiais ordinários e os despachou, no início deste ano, para o sul da França, especificamente para o Festival de Chaumont-Sur-Loire. Um lugar que certamente foi uma inspiração ou inconsciente coletivo para a nossa versão brasileiríssima, Inhotim. Com alguns bons hectares, o Festival é um local de encontro de paisagistas, arquitetos, artistas, designers ou jardineiros. Henrique Oliveira é o único brasileiro à representar nosso país na “Casa de Edward Mãos de Tesoura”, como brincou a  Casa Vogue deste mês, sobre este espaço espetacular.

henrique oliveira momento fecundo 2014

Bem como o título de sua obra, “Momento Fecundo”, o artista se encontra numa fase criativa realmente muito produtiva. Sorte para nós amantes da arte!

Que a brasilidade rode o mundo inteiro e mostre a sua cara. Seja em tapume, seja em madeira de lei!

Que a beleza nasça do lixo, cresça no luxo e viva na eternidade. Salve a arte brasileira!

Joias Brasileiras

Se  um dia me perguntassem quem foi o primeiro designer de jóias do mundo, eu diria: os homens das cavernas.

O ser humano tem a fantástica capacidade de desenvolver estratégias de sobrevivência que lhe facilitam e proporcionam prazer consciente ou instintivo.  Ao fazer uso de dentes, ossos, presas, conchas, couro, pêlos, pedras e outros elementos achados ou adquiridos na natureza, ele os transformam em patuás, ornamentos de beleza, objeto de matrimônio, troféus de caça ou exibição de status à sua comunidade. Seja numa cerimônia aos Deuses, seja num baile imperial, a ornamentação corporal sempre esteve presente na humanidade.

Tentando traçar um breve histórico da joalheria, a perita judicial em design de jóias, Eliana Gola descreve o quão  importante é delimitar o que é jóia e tentar defini-la. No livro The art and craft of jewellery, de Janet Fitch, na introdução sobre o tema fica clara essa definição, onde cita que “a história convencional da joalheria é narrada a partir do ouro, prata e pedras preciosas, numa sucessão de colares, cetros, coroas e tiaras fabricadas para reis e rainhas. Porém existe outra, uma história paralela sobre antigos objetos decorativos de amplos grupos espalhados pelo mundo à fora. Nação, costume, etnia e joalheria de design moderno são partes desta história alternativa, onde o ornamento não obedecia regras.”

Assim como hoje existem designers que utilizam materiais alternativos em suas peças, antigamente os primatas já o faziam. Quando digo, materiais alternativos me refiro à algo que saia do padrão tradicional da joalheria como as pedras não polidas, pele, chifres, cerâmicas, penas, fibras, madeira, etc. Ao investigarmos a cultura dos povos da antiguidade, seus adornos, adereços de adoração, emblemas e significados nos surpreendemos com a qualidade e ousadia de criação de nossos antepassados.

Tal qual uma jóia de metal precioso, a arte plumária dos indígenas brasileiros, com sua minuciosa confecção manual, exuberância estética entre cores e equilíbrio simétrico, assim como a raridade das espécies capturadas (visto que atualmente a fauna e flora regram por grande proteção ambiental) possui altíssimo valor de mercado. “Se compararmos a arte européia e a arte indígena, veremos que, se na Europa começava o interesse pela botânica e floricultura, manifesto na joalheria, os índios brasileiros sempre a tiveram como inspiração.” Eliana Gola também classifica valiosa a diversidade e excelência de pinturas corporais de algumas tribos, contando que elas também fazem parte do ornamento físico e tem grande importância simbólica para os rituais.

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 A partir da descoberta do ouro no Brasil, no século XVII, principalmente em Minas Gerais a corrida pelo metal faz antecipar uma popularidade internacional, resultando no que Gilberto Freyre descreveria de “caldeirão cultural”. Os ourives, que antes vinham de Portugal, agora eram os ditos “impuros”, mestiços, ou brasileiros que se dedicavam à profissão utilizando técnicas e sabedoria de seus antepassados. Misturando uma série de materiais alternativos como contas de castanhas, pau-brasil, ossos ou presas de animais nativos, dá-se aí o início de uma identidade nacional, baseada nas crendices populares, miscigenação, elementos resgatados na natureza e motivos da brasilidade.

blog lian

 Assim como os indígenas, os africanos ou a realeza européia, a corte brasileira também desfilava seu status e poder nas festas através de suas jóias e pedras preciosas, mas com um pequeno detalhe, suas escravas também tinham de usá-las. As conhecidas jóias de crioulas eram confeccionadas exclusivamente para essas escravas. São assim chamadas porque eram criadas dentro do ambiente da nobreza, isto é, dentro da casa-grande e não na senzala. As amas de leite, ou afilhadas, até mesmo as amantes dos senhores possuíam suas próprias jóias. Atualmente, seria como possuir um carro de luxo e o exibir à sociedade, quanto mais riqueza tivesse mais jóias se adornaria a crioula.

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 Com o passar do tempo e o enfraquecimento da política de escravidão as próprias escravas compravam sua alforria com suas jóias. Os adornos englobavam uma mistura de temas da joalheria portuguesa com a africana, fortemente manifestada por motivos religiosos ou profanos. São conhecidas as peças que incluem ébano, búzios, piaçaba, corais, marfins e cristais. Laura Cunha editou um livro de imagens e história das Jóias de Crioula, onde fez uma maravilhosa seleção de peças, principalmente dos famosos balangandãs. Num conjunto harmônico de pingentes, o balangandã era peça fundamental na ornamentação da crioula. Cada pingente tinha seu significado, sua simbologia litúrgica ou sua função de proteção. Também eram peças barulhentas, visto que presas aos tornozelos ou cinturas informavam o local exato das escravas.

blog bernardo

A história da joalheria brasileira ainda é pouco explorada, porém muito valiosa. Não por acaso, um dos raros mantos tupinambás está num museu da Dinamarca. Peças em cerâmica, de índios Carajás ou marajoaras, cocares elaborados com espécies de pássaros já extintos, ou estão nas mãos de meticulosos colecionadores ou em instituições estrangeiras. Nosso legado como designers é o de acrescentar às gerações próximas a nossa verdadeira herança cultural. Seja pelo desenvolvimento de novas técnicas, seja no resgate de nossas raízes.

Como na versão do colar cocar, de Tatiana Potrich e na pulseira balangandã, de Antônio Bernardo.

O primeiro ícone do grafite brasileiro

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Fuçando o Instagram encontrei no post da revista virtual @zupimag, essa imagem do artista francês Antonie Helbert. Pintor, escultor, ilustrador e fera na camuflagem e hibridismo de personagens famosos ou seres fantásticos, fruto da imaginação coletiva, ele consegue os transformar quase numa realidade intrigante e divertida. Não é dele que eu quero falar, mas foi por causa dele que recordei de uma personagem muito famosa, por aqui no nosso país, a Rainha do Frango Assado, de Alex Vallauri (1949-1987).

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Filho de italianos, nascido na Eriteia, então parte da Etiópia ocupada pela Itália, Vallauri mudou se para Buenos Aires, Santos e, por fim São Paulo. Ele que se dizia um “afro-italiano, meio portenho, meio brasileiro”, teve uma vida on the road. Bateu tanta perna por aí, que chegou a conhecer pessoalmente Andy Wharol, Jean Michel Basquiat e Keith Haring. Tops e pops da vanguarda artística internacional, Vallauri trouxe na bagagem uma linguagem urbana que iria se

expandir ao longo de ruas, becos e avenidas paulistanas e, para minha felicidade, uma mostra interativa na  Bienal Internacional de São Paulo, em 1985, com a grande instalação “A festa na Casa da Rainha do Frango Assado”. Antes mesmo das carinhas amarelas dos OsGêmeos, ou de stencil’s com imagens de punhos fechados, o martelo e a foice e outros  tantos ícones da nossa cultura  pós-ditadura, Alex Vallauri desafiou o bom gosto e os bons costumes para expressar a verdadeira realidade da cultura pop nacional, dando uma nova versão à mulher de classe média paulistana, cafona e irreverente. Algo entre “femme fatale” e prostituta barata.

Suas técnicas e como as aplicava foi uma ruptura às convenções das artes plásticas. Usufruindo da rua como suporte artístico fazia uso da gravura, carimbos ou stencil’s para se expressar em muros, paredes, postes e até no chão. No ano passado, em abril, o artista teve mostra retrospectiva no MAM, com curadoria de João Spinelli, que remontou a instalação da Rainha do Frango Assado. Ainda me lembro das imagens da artiz, Claudia Raia que encarnou essa personagem no vídeo que fazia parte da instalação. Embora, com apenas 7 anos, aquilo me marcou profundamente, talvez até por causa da idade, mas meu sonho de consumo era ser a Rainha do Frango Assado quando eu crescesse (risos), ou até mesmo a Claudia Raia. Não seria nada mal…

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O mais legal é que, também nessa semana, encontrei a imagem da personagem nos traços característicos do artista Speto. Seus trabalhos englobam as técnicas do grafite, pesquisas sobre xilogravura, pinturas e desenhos. A homenagem é muito bem vinda, não é à toa que o título deste post é sobre esta personagem icônica, da década de 80.

Diretas Já, liberdade de expressão e empoderamento feminino!

Oh Yes!

Abelhas para quê te quero

Quando li “As abelhas farmacêuticas”, um livrinho de bolso que sintetizava de forma objetiva todas as qualidades dessas fabulosas doçuras da natureza, com meus poucos 10 ou 12 anos, não imaginaria que algum dia, aqueles bilhões de insetinhos poderiam correr o risco de sumirem do nosso planeta. Para um clássico otimista isso é passageiro, mas ainda sim é bom que hajam holofotes para a notícia. Especulam que esse sumiço é cíclico ou que uma bactéria esteja infectando nossas amigas. Também existem indícios de que os agrotóxicos e a derrubada de florestas e matas para as grandes lavouras sejam a causa principal do êxodo dessas fazedoras de mel, que migram para áreas mais expostas à poluição e de riscos para o seu equilíbrio ecológico.abelhas izu

A animação Bee Movie, de 2007 foi a primeira mostra do desastre ecológico, caso realmente esses insetinhos comecem a desaparecer.  O filme tem um roteiro divertido, mas prende a nossa atenção, justamente pelo fato das abelhas exercerem um cargo de extrema responsabilidade no ecossistema. No mês junho de deste ano, a marca de cosméticos Natura lançou a campanha de perfume masculino inspirada na arte de rua, o grafite que traz imagens contrastantes entre o urbano e a natureza, como no frasco com o desenho do artista IZU. O artista paulista, que tem a abelha como objeto de estudo para seu trabalho cedeu a imagem para a embalagem da marca, que além de remeter à um doce aroma, a abelha sugere uma ligação natural ao corpo e à vida do ser humano.

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Bela ou não, a intervenção de Siron Franco na Fundação Rizzo faz jus à importância desse bichinho para a sociedade. O artista goiano plotou dezenas de abelhas no casarão como um apelo e denúncia à sua frágil existência.

O artista não tem que agradar à todos os gostos, ele tem que fazer arte, informar, ter um ponto de vista crítico e colocá-lo em prática, porque “essa é a função do artista: incomodar”, Stella Maris.

Salve as abelhas!

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As Artes sem fronteiras

Assistindo à um filme, escutando uma música, lendo um livro, observando uma obra de arte, admirando um desfile de moda, divagando sobre a arquitetura, degustando uma saborosa refeição, contemplando um espetáculo de dança ou uma peça teatral nos tornamos, de certa forma, parte destas manifestações de arte. Atiçamos nossos sentidos e nos transportamos para lugares que só a mente pode nos levar. Seja pelo cheiro, o gosto, ou o som que nos lembra algo ou alguém, algum lugar, ou momento. As fronteiras entre uma arte e outra tendem, cada vez mais, a desaparecerem, ou seja, todas as artes tendem cada vez mais à se aproximarem. As artes plásticas como suporte para moda, a culinária como obra de arte, a música universalizando a moda, com o cinema e a arquitetura, a literatura com design…

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O estilista da grife Osklen, o brasileiro Oskar Metsavaht é literalmente um cientista artístico. Formado em Medicina e especializado em traumatologia do esporte, por uma ironia ou sortilégio do destino fundou a marca mais descolada do lifestyle esportivo chic. Pesquisa para sua próxima coleção nada mais que o Instituto Inhotim e dá show de sustentabilidade em muito europeuzinho politicamente correto.

alex atala blog

A sustentabilidade também entrou no mundo do mestre das facas, que já citei aqui no blog num post anterior, o punk pop, Alex Atala. Ele uniu os temperos e sabores da cozinha brasileira pra estrangeiro nenhum botar defeito. Lhe cai bem a expressão “comer com os olhos”, porque seus pratos são verdadeiras obras de arte.

Músicos que unem o útil ao agradável, o erudito e popular, o pop e clássico, como o pernambucano Lenine que, num mesmo show, convidou um rapper, uma harpista e uma orquestra sinfônica para dividirem o palco. Ou a banda O RAPPA, onde o show explora projeções virtuais com imagens de grafites e a banda compartilha suas letras com talentosos como Maria Rita e Siba, o rei da rabeca. Mais ainda, o maravilhoso show de Marisa Monte, que uniu o público à boa música e arte com excelência, pois a cenografia foi assinada pelo artista carioca, Ernesto Neto.

ernesto e marisa

O cinema provavelmente é o que mais universaliza as artes. Num bom filme se pode ter uma boa trilha sonora, cenas que pontuam as artes plásticas ou o uso da fotografia do filme é a própria obra de arte, um figurino top style, locações de design, enredos literários…

A arquitetura, só pra citar um exemplo que é tão acessível à mim quanto à qualquer outro cidadão, como a  da Pinacoteca de São Paulo, é um hino às multiplicidades das artes, o antigo encontrando o novo em diálogo constante com as artes plásticas, música, dança, teatro, desfile. pinacoteca

Com a literatura não é diferente.  Quem não conhece ou ouviu falar de João Ubaldo Ribeiro? Ou Jorge Amado? A literatura baiana invade os nossos ouvidos num sorrateiro sotaque arrastado, os livros tem cheiro de mar, a escrita tem o som das ondas somado ao barulhinho das conchas na areia, lembrando as músicas de Dorival Caymmi, os desenhos de Carybé, ou as ladeiras do Pelourinho!

Interessante falar sobre isso, mas a necessidade veio por causa de um acontecido no Facebook. Mestre em Arte Publicitária e Produção Simbólica, ECA/USP, foi meu professor na pós graduação na UFG, em 2002, talentoso artista plástico, Carlos Sena Passos, nascido em Mairí, BA, 1952 e atualmente diretor do Centro Cultural da UFG, deu início à uma importante lista de artistas que integram a Arte Contemporânea de Goiás HOJE. Seu conhecimento e sua seleção são indiscutíveis, mas por força do (meu/mau)hábito retruquei sua curadoria e fui instigada à promover minha própria lista de artistas. Não o bastante, o empresário e agente cultural Fabrício Nobre também fez a sua.

Bem, e o que isso tem a ver com as fronteiras das artes? Venho de uma formação acadêmica da moda, da arte e da história, Nobre vem de uma formação acadêmica do Direito, do circuito da música, do rock (Noise Festival, Bananada, Vaca Amarela e tals). Nossas preferências  se convergem ou se divergem, ora pela nossa formação ou bagagem cultural, ora por nossas opções pessoais e sentimentais. A experiência foi muito legal, porque “acaba que a gente começa” a conhecer um pouquinho mais das pessoas, da arte que mais nos atrai e, de como ela rege as nossas vidas direta ou indiretamente! Observando essas preferências  nos damos conta de que todas as outras artes sofrem a mesma influência. Ver a lista dos artistas de Nobre é como estar escutando rock, caminhando pela cidade, contornado prédios, carros, becos e vielas, descendo escadas e adentrando em porões ou pubs, usando preto, caveira, tatuagem, mastigando chiclete. Ver a lista de Sena é como estar escutando MPB, numa praia, numa floresta, na rua ou numa repartição pública, usando uma bata, um jeans, um lenço, um documento, tomando uma coca-cola!

Associar todas essas manifestações artísticas pode ser um exercício de cidadania. A gente compreendendo um pouco a história do outro, suas preferências, idéias e ideais. Sem fronteiras para imaginar, sem fronteiras para se assemelhar ou diferenciar! A análise é um pouco superficial, mas diante das referências distinguimos as pessoas, seus hábitos, suas experiências. “Se despir de preconceitos quando se trata de obras de arte é muito importante”, ressalta minha irmã Ludmila Potrich e estendo a idéia para todas as artes em si. O preconceito é a fronteira máxima para quem quer ir adiante! Mas aqui, a arte é sem fronteira!